Outras praias – 13
poetas brasileiros emergentes
[antologia organizada
por Ricardo Corona]
Lançada em 1998 em edição bilíngüe (português/inglês) pela
editora Iluminuras, a edição envolveu a colaboração internacional de
tradutores, poetas e professores do Brasil e Estados Unidos.
O volume de 300 páginas traz poemas de Antonio Cicero, Ademir Assunção,
Maurício Arruda Mendonça, Ricardo Corona, Rodrigo Garcia Lopes, Jaques
Mario Brand, Júlio Castañon Guimarães, Carlito Azevedo, Alexandre Horner,
Neuza Pinheiro, Marcos Prado, Adriano Espínola e Claudia Roquette-Pinto.
As traduções para o inglês foram feitas por Arto Lindsay, Charles
A. Perrone, Clelia F. Donovan, David William Foster, Frederick G. Williams
(EUA), Brunilda T. Reichmann, Jaques Mario Brand, Ligia Vieira Cesar, Maurício
Arruda Mendonça, Rodrigo Garcia Lopes e Ricardo Corona (Brasil).
Além do prefácio escrito por Antonio Risério, o livro tem posfácio
do professor Charles A. Perrone (Universidade da Flórida) e orelha do
professor David William Foster (Universidade do Arizona), ambos estudiosos
da cultura brasileira. A publicação estampa ainda 14 gravuras da artista
plástica Eliana Borges. “Podemos
afirmar que estes poetas são ‘emergentes’ e que esta poesia é uma nova
poesia. Todos os poetas estão entre os muitos que no Brasil dão hoje forma
a uma nova saga.”
Assim o crítico e professor norte-americano Charles A. Perrone, da
Universidade da Flórida, refere-se aos poetas da antologia Outras
Praias - 13 Poetas Brasileiros Emergentes.
Uma
parte dos poemas apresentados em Outras praias, em primeiro instante,
originou-se de um convite informal feito pelo poeta e editor norte-americano
Lawrence Ferlinghetti, interessado em reunir uma mostra significativa da
poesia brasileira recente para a revista “City Lights Review”. Em
segundo instante, ampliando a seleção de autores, nos propusemos a
organizar esta antologia, que foi sendo habitada por uma multiplicidade de
idéias, ganhando approaches e a robustez necessária para
espraiar-se numa diversidade de dicções.
Esta
edição, contendo a produção de vários poetas, está longe de ser um
saldo de geração. Trata-se de uma reunião de poemas escritos ao gosto da
época – ou como Paulo Leminski apontou, ainda na metade da década de 80,
que os anos 90 seriam marcados por uma produção “atomizada”,
individual, sem constituir “nenhum movimento literário”. Ou ainda: “A
poesia dos 80 e 90 terá como marca essa recuperação do artesanato,
incorporando, por dentro, intrinsecamente, os recursos da vanguarda”.
Os
poetas reunidos aqui estão interessados em “dizer”, em produzir novos
sentidos, outros climas, configurando uma poesia que não seja indigna da faísca
mais viva da produção poética brasileira; desde o barroco tropical de
Gregório de Matos, o boca do inferno da Bahia, à lírica samurai de Paulo
Leminski, o cachorro louco de Curitiba.
Enfim,
segue Outras praias, estendendo ondas comunicantes de uma poesia feita para
regenerar sentimentos, valorizar a imaginatione e, portanto,
convivendo com a palavra no ar, oral, esvoaçante e asselvajada – num relax caprichoso sem perder o rumo da linguagem. (Leia
ensaio de Antonio Riséro sobre Outras
praias).
Ricardo
Corona
Praia
dos Ingleses/Florianópolis, dezembro de 1997.
SOBRE A COLHEITA DE FLORES DA FALA
Vamos
partir do mais elementar. Nem mesmo a fotografia nos mostra o real literal.
Uma foto é sempre e obviamente um ponto de vista. Uma determinada mensagem.
Implica seleção, escolha. E se é possível dizer isso de um retrato, o
que dizer de uma antologia?
A expressão, como se sabe, vem da língua grega: “anthos” (flor)
+ “legein” (colher). Antologia seria, em princípio, um tratado das
flores, a atenção botânica para as florações do mundo. Em literatura,
uma coleção de textos de um ou de muitos autores. “Flores of speech”,
poderíamos dizer, recitando James Joyce, o gênio semicego do Finnegans
Wake. E a etimologia diz tudo. Colher é tirar, separar, escolher.
Neste sentido, uma antologia é sempre um recorte. E um recorte feito
de, pelo menos, dois cortes. Em primeiro lugar, seleciona-se um elenco de
autores; em segundo, trechos ou textos dos autores escolhidos. E é
justamente por isso que uma antologia não fala somente de um autor, ou de
um grupo de autores. Fala, também, de quem a organizou. Dito de outro modo,
ela deixa ler o ponto de vista que presidiu a sua feitura. A ideologia
textual que balizou e regeu a sua composição. É assim que sempre
detectamos, com relativa facilidade, o compromisso de qualquer antologia,
seja ele de caráter principalmente estético, ou diga respeito apenas a
disputas pelo chamado “poder literário”.
É claro que Outras praias também faz o seu recorte. E é
igualmente óbvio que os poetas aqui presentes significam uma escolha. Um
dos recortes e uma das escolhas possíveis, no horizonte da produção
textual brasileira de nossos dias. Não que tal produção se deixe
caracterizar agora, diante de nós, por extrema densidade ou por alguma
fascinante riqueza. Não é bem isso. É que o fazer poético entre nós se
apresenta, aqui e agora, como um campo cheio de matizes, de flores
ostensivamente variadas, indo da poesia da palavra cantada às experimentações
intersemióticas da inscrição computadorizada, informática.
Mas há um problema, aqui. O recorte de Outras praias não
traz a marca de uma escola. Não é nitidamente geracional. Não parece se
articular sobre uma base claramente estética. Nem sugere ter se formado em
função de querelas literárias. E então? Bem, então sinto-me à vontade
para viajar em céu aberto. Para esboçar um “plano de conjunto”, como
se diz em jargão cinematográfico. E assim poderemos falar da variedade
antes referida, situando em termos gerais o recorte desta antologia.
A força da poesia da música popular brasileira (embora esta não se
ache, hoje, em momento especialmente criativo) teve o dom de nos prevenir
contra exclusivismos tecnológicos no terreno do fazer poético. Na década
de 1950, os poetas concretos do grupo “Noigandres” vieram também para
alargar o campo, falando-nos de sintaxe espacial, de modos de ser da palavra
em estruturas “ideogrâmicas”. Aprendemos assim, e há tempos, que cada
palavra tem a sua própria poesia. Que cada uma delas (falada, recitada,
cantada, manuscrita, gravada, impressa, informatizada) faz as suas exigências
de linguagem. Que possui, ainda, potencialidades expressivas particulares. E
que, por fim, toda hierarquização é ideológica: a poesia de nenhuma
palavra é necessariamente superior às outras, em decorrência de algum
decreto divino, ou diabólico.
Na verdade, desde que saibamos reconhecer o poético como algo que não
se deixa aprisionar em moldura greco-latina, veremos de imediato que as
diversas naturezas da palavra podem ser tratadas em modo criativo. Em termos
de estética da palavra, nossos índios kuikuro, por exemplo, costumam
distinguir entre fala, fala cantada e canto. A música como que transfigura
a fala comum, ordinária, instituindo assim a “conversa bonita”. Além
disso, essa “sprechgesang” alto-xinguana se subdivide em cerimonial e
oratória, sendo que o canto falado cerimonial é uma forma textual mais
trabalhada, mais “erudita”, por assim dizer.
Com o advento da tecnologia da escrita, muita coisa mudou. Os poetas
tiveram que aprender a produzir para um novo “medium”. Aprender a
escrever. (The Muse Learns to Writte é, alias, o título do livro de
Eric A. Havelock sobre essa crise comunicacional.) Para, adiante, toparem
com as máquinas impressoras e as máquinas datilográficas. E que ninguém
se engane: entre a poesia da palavra orgânica e a poesia da palavra quirográfica,
a distância é enorme. São registros textuais distintos, como outro, bem
outro, é o registro da palavra impressa, tipográfica. E hoje, depois de
percorrer os caminhos da quirografia e da tipografia, a práxis poética vai
tomando, também, os caminhos da palavra eletrônica, da escrita multimídia,
o signo verbal convertido em “bits”, na textura da cultura informática.
Podemos falar então, para além dos acidentes previsíveis na seleção
de treze autores, de um recorte tecnológico de Outras praias. Um
recorte tipográfico. Não se vai encontrar aqui a quirografia nem a
infografia. O que está em cena é a criação poética literária, no âmbito
da palavra industrial, da palavra impressa. Mas é bom frisar que esse
recorte é, digamos, ocasional – e não uma postura exclusivista. Até
mesmo porque alguns dos poetas aqui reunidos transitam por outros códigos,
fazendo “letras” de música, por exemplo.
No horizonte assim delimitado, o que encontramos, nesta antologia, é
um time de treze poetas que jogam, com aptidões variáveis, pelos caminhos
também variáveis da Língua Portuguesa do Brasil. Poetas que procuram
explorar, como os poetas desde sempre o fizeram, o sistema lingüístico em
que se movem, tirando partido da sonoridade e das ambigüidades de nossa língua,
e mesmo avançando em direção a construções de feitio partitural, no
repertório da produção poética de finais do século XIX e de movimentos
modernistas.
Mas é bom que fique claro que não estou emitindo, aqui, nenhum juízo
de valor. Disse, antes, que considero fundamentalmente suspeitas hierarquizações
estéticas do signo. Como dizia o poeta-crítico Mario Faustino, a poesia é
um pássaro versátil e bem pouco esnobe. Pode fazer o seu ninho em qualquer
canto.
Aliás, não estou aqui sequer para análises-relâmpago de cada um
dos autores antologizados, numa distribuição justa ou injusta de restrições,
dúvidas ou elogios. Deixo isso, nesta passagem, para críticos e
professores de literatura. Não porque viesse a se constituir em tarefa um
pouco mais complicada (de resto, encontro aqui alguns amigos e alguns
criadores textuais que admiro e que já focalizei em outras ocasiões), mas
sim porque o que me interessou sublinhar foi o amplo espectro dos possíveis
do fazer poético, contemporaneamente, situando aí o projeto de Outras
praias. Mas não esperem de mim “notas” ou “certificados” – e
nem mesmo sei o que contaria minha opinião.
O que importa para mim, ao findar a leitura de Outras praias,
enviada dos pinheirais que abrigaram Dario Veloso e Paulo Leminski, é poder
enfatizar que a poesia se tece, vai se tecendo, independentemente de abusos
de literatos engastados no poder jornalístico (nesses tempos em que, como
no verso de Ezra Pound, “we have the Press for wafer”) e de chinfrinadas
aveludadas em gabinetes autopromocionais.
Enfim, o que importa é a poesia. A poesia que não se rende. O poeta
que está preocupado com a linguagem e não com o “lobby” marqueteiro em
torno de si e de sua turma. O poeta que se entrega, antes de mais nada, ao
seu ofício ou arte – e não o versejador que busca, sobretudo, uma vaga
nos manuais de literatura. Afinal, como observava Machado de Assis de Dom
casmurro, o que fica é a obra. Sim – a obra: em grafite, música,
caligrafia, página impressa, monitor ou videoclipe.
Que o leitor siga à vontade, portanto. Que mergulhe, surfe, veleje
ou navegue ou faça o que bem (ou mal) entender, nas águas de Outras
praias.
Antonio
Risério
Salvador/Bahia,
1997
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