Poemas de Regina Vater 

 


 

 

           

Verniz africano


África de Picasso
de Baselitz
verniz d'África
casca
cheirando a oco
alma em absência
da veráfrica
na veracidade
de  verás África
ainda guardas incógnita
o melhor de ti.
  

 







Lição das violetas


Tento não pisar
o silêncio das violetas
em florada azul
ao pé do antigo carvalho.

Elas me ensinam
modéstia e alegria.

 

 







Crítico


Há criticas
e há criticas
Há vidas
e há vidas.   

 

 








Embalando memórias


Seiva
cheirando verde

Na brisa fresca
buzar de grilos.

Um passarinho canta seu risco no alto azul
Um peixe prateia num átimo o espelho d'águas

na rede
sob o farfalhar das árvores
embalo memórias soltas
dum Brasil que não sei se mais existe. 

 








Moderno pastoral


Ao ruído da autopista
Trem somando ao longe

Sobre a cabeça
aterriza um avião

Motores aquáticos
               Cruzam-se
                                 ao largo
a motocicleta teima
em não pegar

um passarinho tenta ser ouvido.                   

 








Body language


Na leitura do corpo
tudo conta tudo narra:
do alô ao tique
o desvio na voz
o olho que baixa ou desvia
o músculo que salta
a mão que retrai
o sorriso sem força
ao tipo de vinco na face
à tensão na postura
à curva
ao angulo
à dureza ou moleza
no corpo ou no andar.
Tudo emana e traduz
medo, inveja,
preguiça,
hipocrisia
arrogância
compaixão
admiração
respeito ou cuidado.

É de tal poder este saber
que tal qual outros mais saberes
É de preciso saber sabê-lo.                   

 






Língua estrangeira



Às cegas tateio a fala incógnita
sem bússola mareio novas palavras
Atenta a só sons sem sentido
sondo sentimentos
uno aqui, ali re-conhecimentos
prefixos, sufixos, raízes
intuo mensagens
componho meu texto
Nele traduzo realidades
atravesso a solidão.
                         

 






Cavalos de lata


Águas em cúmulos
viajantes no anil
sobreolhando
o asfalto bafejando
torridão
torpor

Nem asa se move
nem piados nem relinchos se ouve
só os homis
cruzam a canícula
em seus cavalos de lata e plástico   

 

 


Fado


Antes que eu cruze
o letal rio do oblívio
quero experimentar do pano
que Clotho a mim teceu
e
que o longolho cinzento das Grisalhas
me alcance a vista visionária
da sábia sabença
endentada no siso gris
E que eu a receba
daquele molar amaciada
quando à/a penas
a visão dos anos
atinge conferir
                     

 





To listen...


It is easier
to listen
the distant pulsar

than to detect sounds
from your conscience
                     

 

 





The building matter


The matter
written in numbers/light

builds
cathedrals

you & me

the little cucaracha

and all galaxies                       

 

 





Belly button


You can't aspire lofty poems
from inside your belly button

 

 


                  

 

 





Tudo passa e nada muda


Descobriram,
recente.
Em ossatura
datada a carbono,
que:
os últimos dos mastodontes
na Groenlândia vagaram
menos de 3.000 anos atrás

Porque sumiram?
-Bicho homi!?
A mais certa explicação...

Irônico,
já pela mesma época
muitos, há muito, seguiam
as iluminadas pegadas
do santo Buda

E por tempos no Egito
a esfinge já haveria devorado
vários egos polvilhados
entre pedras no deserto.

E
em tinta em papel ou seda
na China poetava-se
com alta arte

à Natureza...