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A
leitura sempre foi peça fundamental na minha vida. Primeiro, porque havia
livros na minha casa; cresci cercada por eles. Depois, porque morava numa
cidade muito pequena do Rio Grande do Sul, onde a televisão demorou muito
a chegar. Só vim a conhecer este fenômeno da comunicação aos dezoito
anos, quando mudei para o Rio de Janeiro.
Desse modo, a leitura era uma forma de ocupar o tempo numa cidade que
possuía apenas um cinema, cujos filmes se renovavam de dois em dois
meses.
Eu quase não conhecia jornais. Poucas pessoas recebiam revistas ou outra
forma impressa de informação. A não ser pelo rádio, quase não tínhamos
acesso ao mundo que nos cercava.
Aos dez, doze anos, eu já lia Lorca em espanhol e o D. Quixote veio parar
nas minhas mãos aos treze anos. É claro que entendia muito pouco do
universo quixotesco, mas dava muitas gargalhadas como o cavalheiro da
Triste Figura e suas aventuras pelas estalagens do mundo.
Vim parar no Rio em pleno 1973, quase sem informação sobre o que de fato
era o Brasil na época. A megacidade e a televisão colorida tomaram conta
de mim por algum tempo. Mas se pouco sabia sobre o nosso contexto político
e econômico, bastou um ano ou pouco mais para me adaptar e para
compreender a dura realidade que vivíamos.
E a que devo esta facilidade de adaptação a esse país que desconhecia?
À leitura, sem dúvida. Porque mesmo com a cabeça entregue à
literatura, eu já havia sido beneficiada pela agilidade de raciocínio,
pela capacidade de associar fenômenos distanciados no espaço que a
leitura dá aos indivíduos.
Depois,foi só me acostumar à nova cidade e suas manhas. Me acostumar às
outras formas de lazer que me foram presenteadas pelo Rio, entre elas, a
praia. Ao jeito carioca de ser, um jeito que arremedo mal e que às vezes
admiro, às vezes não.
Mas a adaptação foi relativamente fácil. E se dediquei minha vida e
profissão a trabalhar em prol da leitura,não foi à toa. Foi por
compreender na pele o que ela representa no meu mundo, que é o da
escrita, das aulas que dou, dos programas de leitura que desenvolvo. E
mais ainda: por compreender a leitura como terapia, como companhia, como
criação.
Suzana Vargas
(Extraído da Folha da Leitura, número 4, 1996.)
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