
Eu queria estar
naquelas amuradas portuguesas
de onde se avista o mar,
o Tejo,
e o Cabo da RocaLá descobrimos
que o Universo
é uma ilha ambulante
Está
onde estamos
e não existe para além de nós.Eu queria estar
aqui.
As meninas dançando
Parece que estão dormindo?Ou as meninas dormindo
Parece que estão dançando?Capta este momento
em que uma lança,
atravessa seus dedos
e teus olhosAmbas em posição de estátua ?
Móvel
pela dança,E pela guerra que se esconde
em célulaTambém as palavras
são libélulas.
Conheço um lugar
e dele procuro as raízes
Melancolicamente, às vezes
com raivaCortava minha paisagem
a locomotiva,
os dias de sol,
o inverno tardio,
uma árvore que, de tão alta,
se inclinava até o solo.Quanto mais cresço
mais dobro
Ela.
Ela pertenceu num dia que dista
à classe refinada de empregadas
(brilhavam de limpeza suas unhas,
um cabelo de redes na cabeça)... Marmorizou.
Ainda se acredita vestindo madames
na Muda,
ouvindo/acompanhando
viagens à Europa.
E anda pelas ruas agitando um leque
ao qual se acostumou.“É doida”. Dizem uns.
Eu digo ? “É certa”.
Ela apenas anda
os sonhos de mansão
que nós corremos
E só difere porque está desperta.
Quando escrevo o
medoé sempre o mesmo:
chegar atrasada ao que
quero dizer: E de me dar por inteira
nua
e freira
Um carro correndo na ponte
Um sol que vertia sangue
Sobre o monte...Onde os poemas
não escritos?Onde o poema que
não fiz porque não tinha empregada
ou
porque a neném estava
com diarréia?Quando
escrever poemas
no banheiro
Se crianças me
reclamam por inteiro?Meus poemas?
Como encontrá-los
na madrugada
se de noite
me deito
Cansada?Mas eles me acenam:
da água suja do balde
sapóleo branco do piso
Onde meus poemas
o lixoDas aulas que
dou
como louca
E ao diretor custam
Muito pouco?Onde a exata dimensão
freia o que sinto
Corre o que sangro
Talvez tenha encontrado
a poesia do nome
Sou um cristal,
uma pedra a flutuar no abismo
Ela
é o exato momento
suspenso
antes da queda
Eu tenho insistido em poucas coisas
e desistido de muitas.No barco, o leme se perde,
eu e meu quepe distraídos,
sombra e olho fixos no mar
Quase tudo é movimento de suspense:
lápis parado no ar.Positivos, fatais,
os círculos se fecham
Mas eu não.Fico imóvel a emitir as ondas magnéticas
do que está por vir.
E o futuro de todos
me atinge como um raio:
este ama,aquele ali dá aulas
uma lá tem filhos
EUestou
entre fechar os livros
no meio da lição,
ou prosseguir mirando o livro
como um barco
num mar
imprecisão
MONUMENTO ÀS FONTES
SuspensaPássaro a engolir uma serpente,
eriges teus sinais em bronze vivo.Sereias, sacerdotes,
há algum tempo
o mundo te contempla.
Mija ou não,
na cabeça de teus anjos.Mescla de esperma e de gelo,
me espreitas sempre que eu quiser
te olhar.O teu único crime
é perpetuar a flecha,
cravada em antigo coração.E tua história
escrita em cada um
com um punhalJuntará o que rasteja
ao que voa
O trabalho de segunda etc.
Até o sono de sábado
passando pela feira de domingoDemissionária/diária
destas coisas
me deito no divã
E espero a erupção que, penso eu,
breve virá
Mas não.A lava só me atinge a contracapa:
Cortes no gás, na luz,
na compra de alguns livrosE continuo/continuamos:
a perna mecânica,
o braço de papel,
Uma vontade - pivô de,
ao morrer,
ir pro céu.
O avesso da morte
é movimento, vertigem,
pulsar de músculos,
poros
Todas as ações desencontradas
na memória:
livros, contas que se pagam.Como
de um dia para o outro
interromper um artigo
um poema,
desprogramar um cinema
deixar para sempre intactos
nosso guarda-roupas e
chave?
E a mulher,
a mulher que nos espera,
Deixá-la longos anos
na marquise
à sombra de verões,
invernos
primaveras?
Abandonar projetos
cobranças
(que se paguem sozinhos)E o principal:
este momento suspenso
no meio-fio do silêncioDEUS é movimento.
São universais:
relógios de parede,
galos que cantam,
o escuro do quarto......E o anjo que nos fez caretas
a noite toda.
Uma borboleta morta
voa
pelas páginas do caderno
As tardes se desdobram
nos domingos de camarão, de vinho
Pornografias à vista nos edifícios
soldados às segundas-feiras.As meias-tardes
entre cafés os projetos longínquos
rarefazem
uns abacaxis de mármore
nas fruteiras.Pores-de-sol
entre sono e visitas aos parentes
se constroem e são blocos de um concreto
inconfundível
transparentes.Insuperável ?
engolir tantos brindes
aos domingos
Tudo o que já dissemos
sobre o amor,
não supre a expectativa da
paixão.A paixão é adaga afiada
que se crava fundo, fundo
Nela o amor dança
e dorme, sonha tudo.Não tem meias medidas a
paixão.Ou voamos, viramos pelo
avesso
Ou o que nos espera é o
precipício.E isso ? é apenas o início.
Aos amantes é dado o dom
de cozinhar futuros
e de tombar passados.
Deu-lhes a vida que os alimenta
o fogo,
e nada mais.Aos outros deu a esperança
objetivos,
o silêncio luminoso
das estátuas.Aos amantes, o gesto,
o movimento,
a cor às vezes possível
de encontrar.
Cabras desciam o morro.
A árvore não dava frutos
dava louros,
Mas a vontade de dizer pro moço
que a gagueira dele emocionava
(e ele podia me levar dali com ela)
era maior que as surpresas da paisagem.
(um olho nos bichos
outro nas palavras
dançando sobre mim)O rapaz era magro
quase feio,
nunca adivinharia:
queria impressionar falando sobre carros,
política,E eu ali,
ouvido fixo no discurso tropeçante
que ajeitava camisa
e arrumava cabeloMas o centro mesmo,
afora o canto dos louros e a vertigem das cabras,
eram os poucos pedaços de sua voz.
THE NEW YORK COMPANY - DOWNTOWN
Nem um poema sai
sobre esses prédios
sobre essas nuvens
cúmplices do cimento
e o espírito gelado desses homensNas tubulações a fumaça
não aquece nem disfarça
o mergulho raso nesses dias
à beira do Hudson
do World Trade Center
dos sanduíches no Sacks
e as comidas empacotadas com a almaA ilusão esvoaça
nessa Babel de rostos:
chineses
japoneses
mexicanos
alemães
(americanos)
- em princípio reunidos -
não se vêem,
são peças de um cenário
dividido
no leitmotiv da pressa
no que não mastigam da existência
sempre “later”, “in a hurry”
e a máscara da ordem
“don’t worry”Polícias, buildings, papers,
removables notes,
Wall Street na mão
24 horas à disposição dos chefes
em qualquer cordial setor
das agências de banco
nos cafés onde o amor
é o último a chegar
e permanece
- ferida em aberto -
para o fim da vida.Também em Nova Iorque
queremos ser felizes pelo avesso...mas felicidade a esse preço
eu agradeço
Só me lembro que atrás de nós havia um morro
a mata
No centro, a música, o violão
Fazia frio e nuvens
se aqueciam pelo som.Havia, entre outros,
uma água
um menino cortando cabelo na beira da casa
as tangerinas no pé.Do grupo, um homem
me perguntava
sobre a melhor forma
de começar um banho
sem reparar no profundo da questão-- Entro devagar
ou de uma vez por todas? Perguntou-- Por todas, respondi
Não há céu ou inferno
que comece devagar
O sonho vela o escuro e é real
E o real é essa onça é esse sol
É mais real que as grades, que a comida
Do carcereiro, é mais real que a vida.
Com a sua avidez adormecida
A onça sonha, mas não sonha em vão
Em vão vai quem se prende à realidade
E imagina ser livre sem as grades.
Na verdade uma paixão nos prende a tudo
E mesmo cegos surdos mudos continuamos.
Mas pensemos na onça em sua cela
no seu sono velado à luz do dia
Que a obriga a dormir com seus limites:
o cheiro, a cor, ruídos rutilantes
(instintos e capim e terra e ar)
Por que imaginarmos diferente
Se o limite da onça é sonhar?
Quem não teve seu dia transtornado
Pelo balão azul de uma menina
E o desejo de furar o céu de gás
Por ela infelizmente despertado?
Quem insinuou todo veneno
Brigou pela comida, por salário
E carregou debaixo do seu braço
Um livro de poemas como remo?
(É sempre esse estar insatisfeito
a corda bamba das muitas emoções,
o tal desejo de que a vida seja um lago
um afundar de faca na manteiga)
Quem, neste setembro, na manhã,
sentindo o vento contrário ao de seus planos
Recusa-se ao amor, quando é o amor
que dá leveza aos remos e aos ramos?
Só pode uma pessoa dar tais passos
contraditórios na manhã sombria:
Enfrentar-se com palavras e, com elas
Passar de tanta raiva a esta alegria.
Moça debruçada na janela,
como é bonito vê-la através
de tantos carros passeando na avenida,
e tendo ao fundo a luz mortiça
de desbotadas paredes
onde repousam tantos tesouros
do tempo ? a velha foto da avó ?
um poster da seleção,
ainda com GarrinchaVocê se recosta
e equilibra
toda a loucura do universo
num só braço
o outro cruza
em direção às flores mortas
de um vaso alto e antigo,
desejoso de festas.O sobrado se desgasta,
alguns musgos
o guardam.
No alto,
em letras ancestrais, está escrito ? HOTEL ?
e quase opacas.
Em baixo,
o luminoso
onde se lê ? farmácia ?Fique aí,
fixe aí, você
que não sei de onde vem,
que não sabe onde está,
de quem desconheço a história
Mas que pertence ao sobrado,
ao Estado,
ao país.
Longos cabelos negros,
os pensamentos tão longos
presos nos carros que passam ? Fique ?
com seu bisavô na parede,
a tinta rosa mofando seus vitraisEnquanto logo abaixo
dos pêlos do seu braço,
o luminoso pisca
pisca e pisca,
Ainda dentro deste século