HOJI IA HENDA
Procuro um Leão
Um Leão generoso
Que divide o seu pão
E que dá a Vida.
Procuro um Leão
Duro e
implacável
Com os seus
inimigos...
Esse Leão
Doce e humano
Amigo e simples
Chamá-lo-ei
HOJI IA HENDA
Ando à procura de um
Leão
Que sorria da
derrota,
Com tanta fé na
Vitória.
Procuro um Leão
Que seja
temerário
Um Leão amado
Um Leão temido.
Chamá-lo-ei
HOJI IA HENDA
Hei-de procurá-lo
Na terra
Procurá-lo
No mar
Procurá-lo
Nos rios
Procurá-lo
Nas chamas.
Hei-de encontrá-lo em
Angola,
Farei o seu retrato,
Chamá-lo-ei.
HOJI IA HENDA
NOVEMBRINA
SOLENE
Ruy Duarte de
Carvalho
Seu Zuzé, as tuas
vacas, como estão?
Longe daqui,
subimos os morros
fomos procurar
a água que resta
do ano que passa.
Senhora Luna
a farinha
Está a secar.
Tarda a chuva
seca o milho
a lavra não vai
medrar.
Tchimutengue, meu
vizinho
então por cá?
Pois que vim te
visitar
te avisar
que o meu gado vai
passar
aqui por perto.
Tarda a chuva e é
preciso
procurar o que lhe dar
de comer
o que dar de beber
o capim está a ficar
netro
está na hora de mudar.
Imigrante Silva, a
tua mulher?
Está mal.
Que é do leite para
lhe dar
a carne para lhe
engordar?
E os filhos?
Estão magrinhos
doentados
vão ficar igual ao pai.
Que é da
escola para lhes dar
sapatos para lhes
calçar?
Dunduma amigo
Companheiro Chipa
Zeca Ernesto, Calembera,
olhai pelo gado.
Protegei os pastos.
Olhai pela vida das
fêmeas
e pela saúde dos machos
(1972)
ROMANCE
Antonio Cardoso
Stela era a minha
pequenina namorada
nos tempos da minha
infância descuidada!
Para colher o nascer do sol
que tinha na boca
eu corria as barrocas e os
areais vermelhos do meu bairro
e lutava assanhado com
outros miúdos brancos e pretos.
De noite, quando havia
muitas estrelas
e o céu era um buraco muito
escuro
eu deitava-me na areia
vermelha e quente do meu bairro
e no seu colo de menina.
ficava calado a sentir o
tempo passar.
O miúdo Artur
cobiçava-ma
e que dor grande me doía
cá dentro
se os via juntos a falar.
Uma vez, numa noite, de
mãos dadas,
sentindo o vendo molhado do
tempo das chuvas,
eu disse-lhe apontando para
o alto:
aquela e a minha estrela,
qual é a tua?
E todas as noites
ficávamos deitados naquela
minha rua antiga do Musseque Braga
a espiar as estrelas que
brincavam no céu.
Stela era a minha pequena
namorada
nos tempos da minha
infância descuidada!
Por ela eu lutava com
sardões de todos os tamanhos,
subia cajueiros impossível
de subir
e era sempre o primeiro nas
corridas.
Ela dava-me os santos que
escondia de todos
como se fora o tesouro da
ilha dos piratas.
E eu ficava muito sério
como quando me batiam.
Um dia a minha pequenina
namorada deixou o meu bairro.
Nesse dia não corri, não
lutei,
não subi aos cajueiros do
Musseque Braga
e os outros miúdos mais
novos disseram: está doente.
E à noite, sozinho,
procurei as duas estrelas
e chorei como se tivesse
apanhado
a maior tareia da minha
vida!
Stela era a minha pequenina
namorada
nos tempos da minha
infância descuidada!
NAMORO
Viriati da Cruz
Mandei-lhe uma carta em
papel perfumado
e com a letra bonita eu
disse ela tinha
um sorrir luminoso tão
quente e gaiato
Como o sol de Novembro
brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na
fímbria do mar
e dando calor ao sumo das
mangas.
sua pele macia
era
sumaúma...
Sua pele macia, da cor do
jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as
doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce
como o maboque...
Seus seios, laranjas
laranjas do Loge
seus dentes...
marfim...
Mandei-lhe essa
carta
e ela disse que
não.
Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho
tipografou:
Por ti sofre o meu
coração
Num canto - SIM, noutro
canto - não
E ela o canto do NÃO
dobrou.
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.
Levei à avó Chica,
quimbanda de fama
a areia da marca que o seu
pé deixou
para que fizesse um feitiço
forte e seguro
que nela nascesse um amor
como o meu...
E o feitiço falhou
Esperei-a de tarde, á
porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficámos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor...e ela
disse que não.
Andei barbado , sujo,
e descalço.
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
Não viu...
(ai, não viu...?) Não viu Benjamim?
E perdido me deram no morro
da Samba.
Para me distrair
levaram-me ao baile do sô
Januário
mas ela lá estava num canto
a rir
contando o meu caso
ás moças mais lindas do Bairro Operário
Tocaram uma rumba dancei
com ela
e num passo maluco voámos
na sala
qual uma estrela riscando o
céu !
E a malta gritou : Ai
Benjamim !
Olhei-a nos
olhos
sorriu para min
pedi-lhe um beijo
e ela
disse que sim.
POEMA DA
ALIENAÇÃO
Antonio Jacinto
Não é este ainda o meu
poema
o poema da minha alma e do
meu sangue
não
Eu ainda não
sei nem posso escrever o meu poema o grande poema que sinto já
circular em mim
O meu poema anda por aí
vadio
no mato ou na cidade
na voz do vento
no marulhar do mar
no Gesto e no Ser
O meu poema anda por aí
fora
envolto em panos garridos
vendendo-se
vendendo
ma
limonje ma limonjééé
O meu poema corre nas
ruas
com um quibalo podre à
cabeça
oferecendo-se
oferecendo
carapau
sardinha motona
jí ferrera ji
ferrerééé
O meu poema calcorreia
ruas
olha a
probíncia diááário
e nenhum jornal traz ainda
o meu poema
O meu poema entra nos
cafés
amanhã anda a
roda amanhã anda a roda
e a roda do meu poema
gira que gira
volta que volta
nunca muda
amanhã anda a
roda
amanhã anda a
roda
O meu poema vem do
Musseque
ao Sábado traz a roupa
à Segunda leva a roupa
ao Sábado entrega a roupa e
entrega-se
à Segunda entrega-se e leva
a roupa
O meu poema está na
aflição
da filha da lavadeira
esquiva
no quarto fechado
do patrão nuinho a passear
a fazer apetite a querer
violar
O meu poema é quitata
no Musseque à porta caída
duma cubata
remexe
remexe
paga
dinheiro
vem
dormir comigo
O meu poema joga a bola
despreocupado
no grupo onde todo o mundo
é criado
e grita
obeçaite
golo golo
O meu poema é contratado
anda nos cafezais a
trabalhar
o contrato é um fardo
que custa a carregar
managambééé
O meu poema anda
descalço na rua
O meu poema carrega sacos
no porto
enche porões
esvazia porões
e arranja força cantando
tué
tué trr
arrimbuim
puim puim
O meu poema vai nas
cordas
encontrou cipaio
tinha imposto, o patrão
esqueceu assinar o
cartão
vai na estrada
cabelo cortado
cabeça
rapada
galinha assada
ó
Zé
picareta que pesa
chicote que canta
O meu poema anda na
praça
trabalha na cozinha
vai à oficina
enche a taberna e a cadeia
é pobre roto e sujo
vive na noite da
ignorância
O meu poema nada sabe de si
nem sabe pedir
O meu poema foi feito para
se dar
para se entregar
sem nada exigir
Mas o meu poema não é
fatalista
o meu poema é um poema que
já quer
e já sabe
o meu poema sou eu-branco
montado em mim preto
a cavalgar pela vida.
CRIAR
Agostinho Neto
criar criar
criar no espírito criar no
músculo criar no nervo
criar no homem criar na
massa
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
sobre a profanação da
floresta
sobre a fortaleza impúdica
do chicote
criar sobre o perfume dos
troncos serrados
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
gargalhadas sobre o
escárnio da palmatória
coragem nas pontas das botas
do roceiro
força no esfrangalhado das
portas violentadas
firmeza no vermelho sangue
da insegurança
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
estrelas sobre o camartelo
guerreiro
paz sobre o choro das
crianças
paz sobre o suor sobre a
lágrima do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos
Criar criar
criar liberdade nas estradas
escravas
algemas de amor nos caminhos
paganizados do amor
sons festivos sobre o
balanceio dos corpos em forcas simuladas
criar
criar amor com os olhos
secos.
SE A MINHA
TERRA É DE COR
Mauricio Almeida
Gomes
A minha terra
tem cor...
Eu não o conheço
outra terra
onde haja tanta beleza
nas síncopes
coloridas
dum fim de tarde...
Inda está p´ra ser
fadado
um tão nevado luar
que derrame tanto leite
em noites de Lua
cheia...
No meu corpo
bronzeado,
na minha terra tão
linda,
há orgias embriagantes
de cor.
Se a
minha terra é de cor!...
Na chagar sangrenta
da rubra queimada
sem fim
queimando dentro de mim,
e no pesado negrume
de certas noites sem
lua.
e com a lume apagado
no rutilante luzeiro
onde foi crucificada a
minha Raça.
A
minha terra tem cor!...
Nos frutos tão bons,
nas águas imensas,
nos campos lavrados,
nos céus anilados,
nos corpos tão negros
dos pretos,
das pretas,
nas estrelinhas
trementes,
lágrimas de Deus
derramadas
pelos negros inocentes
já doces tonalidades
mistérios,
suavidades,
cambiantes fascinantes
de cor.
Se a
minha terra é de cor!...
A UMA
QUISSAMA
Cordeiro da
Matta
E na manhã fria,
nevada
dessas manhãs de
cacimbo
em que uma alma penada
não se lembra de ir ao
limpo,
eu vi formoso, correcta
não sendo europeia
dama
a mais sedutora preta
das regiões da
Quissama.
Mal quinze anos
contava
e no seu todo brilhava
o ar mais doce e gentil!
Tinha das mulheres
lindas
as graças belas,
infindas
de encantos, encantos
mil.
Nos lábios, postos
que escuros,
viam-se-lhe risos puros
em borboletões assomar.
Tinha nos olhos
divinos
revérberos cristalinos
e fulgores... de matar!
Radiava-lhe na fronte
como em límpido
horizonte
radia mimosa luz,
da virgem casta a candura
Que sói à formosura
a graça que brota à
flux!...
Embora azeitados panos
lhe cobrissem os
lácteos pomos
denunciavam os arcamos
de dois torneados
gomos...