Angola

 

               


Poemas extraídos do livro Poesia de Angola,, publicado pela República Popular de Angola no ano de 1976.

                  Seleção de Poemas:Luís Sérgio dos Santos.

 



POEMA DE AMOR 

Jorge Macedo  
 

Adoro-te, África semente, 
amor profundo, 
nobre fruto do meu eu vivente. 

Adoro a calidez das tuas tranças,  
manta preta do meu primeiro calafrio. 

E o dorso largo em que dormi o sono infantil  
e acordei já homem feito. 

 

   



 

POEMA DE ESPERANÇA 

Arnaldo Santos 

... Os pássaros voarão 
E o mundo encher-se-á de suas penas  

Calados nos ouviremos segredando 
Fazendo do horizonte uma linha longa, 

Tu tremerás receosa do infinito 
Mas eu estarei junto de ti... 

E será doce ou triste aquele poente...? 

Porém tu me dirás sorrindo: 

Que importa? São tuas as linhas desta mão... 


   
 
 

 

MARACUJÁ 

Ernesto Lara Filho 

Um dia 
o pé de maracujá 
que eu plantei no quintal 
cresceu 
e floriu 

Eu nunca tinha visto 
a flor do maracujá. 

Juro por Deus nunca vi 
coisa mais linda do mundo 
do que a flor violeta 
do pé de maracujá 
que eu plantei 
Na cerca do meu quintal 

Um dia 
o maracujá 
que eu plantei no meu quintal 
cresceu e floriu... 


 

   

 
 

O FOGO ESTÁ ACESO 

Ngudia Wendel 

O fogo está aceso: 
noites longas fugitivas
— 
das guerras longas profícuas... 
as vitórias são breves 
e nascem como nasce o sol. 
Este fogo é para os pobres... 
portanto, deixei rugir os ursos 
com a fúria do cataclismo 
em todo mundo
— 
pois se endireitam os dorsos 
dos pobres do mundo! 

O fogo está aceso: 
na africanização das estruturas 
nos homens, 
nas leis. 

 

 

 

 
 

AO SÁBADO A CIDADE 

David Mestre 

Reapreender as normas do  
discurso, por exemplo: ao Sábado 
a cidade 

ou seja: o primeiro da tua  
voz entre frente e gente 
repetes: ao Sábado a cidade 

à ordem lambida dos
holofotes: a rusga
 

mal ferida no adobe exausto  
da carne: 
ao Sábado a cidade 

transpira do transistor para a axila morna 
dos salons: a catinga 

interna do teu corpo sacudido na  
areia devagar ao 
sábado, a cidade 

é: um resto de boca  
no teu súbito 
acordar. 

 

 

 

 


 

 
MEU AMOR DA RUA ONZE 

Aires Almeida Santos 

Tantas juras nós trocámos, 
Tantas promessas fizemos, 
Tantos beijos nos roubámos 
Tantos abraços nós demos. 

 Meu amor da Rua Onze, 
 Meu amor da Rua Onze, 
 Já não quero 
 Mais mentir. 

Meu amor da Rua Onze, 
Meu amor da Rua Onze, 
Já não quero 
Mais fingir. 

Era tão grande e tão belo 
Nosso romance de amor 
Que ainda sinto o calor 
Das juras que nós trocámos. 

Era tão bela, tão doce 
Nossa maneira de amar 
Que ainda pairam no ar 
As vezes promessas, que fizemos. 

Nossa maneira de amar 
Era tão doida, tão louca 
Qu´inda me queimam a boca 
Os beijos que nos roubámos. 

Tanta loucura e doidice 
Tinha o nosso amor desfeito 
Que ainda sinto no peito 
Os abraços que nós demos. 

E agora 
Tudo acabou
 
Terminou  
Nosso romance 

Quando te vejo passar 
Com o teu andar 
Senhoril, 
Sinto nascer 
E crescer 
Uma saudade infinita 
Do teu corpo gentil 
de escultura 
Cor de bronze 
Meu amor da Rua Onze. 

 


 
 
 
 

COQUEIRO 

Tomaz Vieira da Cruz 

Ali, na Rua do Carmo,  
um coqueiro ficou abandonado, 
quando destruíram a casa velha 
a que deu sombra. 

E onde um par enamorado 
teve sonhos de amor, 
nesse pedaço de Luanda antiga 
agora modernizado. 

E o coqueiro ligado à terra. 
tombado na direção 
da Rua da Pedreira, 
como um filho nos maternos braços 
ali ficou. 
Talvez para saudar alguém 
que muito sofreu e amou... 

Mas tudo acaba e o tempo 
tudo anda a destruir, 
— porque tudo é passageiro, 
quando se vive a mentir. 

Ó pincelada verde na cidade, 
ruína e gótica coluna 
de mármore verde... 

Morre, coqueiro, morre, 
Antes que os homens, tão maus, 
cometam a crueldade 
de te expulsar e matar. 

Morre de pura saudade.... 

E perdoa, mas sofre como um homem, 
coqueiro das verdes palmas, 
porque tudo, afinal, na vida, é triste, 
quando se matam Almas... 

 

 

 
 
 

CARTA 

Alexandre Dáskalos 

Jesus Cristo, Jesus Cristo 
Jesus Cristo, Meu irmão 
Sou fio dos pais da terra 
Tenho o corpo p´ra sofrer 
Boca para gritar 
E comer o que comer 
Os meus pés que vão 
No chão 
Minhas mãos são de trabalho 
Em coisas que não sei 
E não tenho nem apalpo 
Trabalho que fica feito 
Para o branco me dizer 
<< Obra de preto sem jeito>> 
E minha cubata ficou 
Aberta à chuva e ao vento 
Vivo ali tão nu e pobre 
Magrinho como o pirão 
Meus fio salta na rua 
Joga o rapa sai ladrão 
Preto ladrão sem imposto 
Leva porrada nas mão 
Vai na rusga trabalhar 
Se é da terra vai pro mar 
Larga a lavra deixa os bois 
Morrem os bois... e depois? 
Se é caçador de palancas 
Se é caçador de leão 
Isso não faz mal nenhum 
Lança as redes no mar 
Não sai leão sai atum... 
Jesus Cristo, Jesus Cristo 
Jesus Cristo, meu irmão 
Sou fio dos pais da terra 
Um pouco de coração 
De coração e perdão 
Jesus Cristo meu irmão. 

 

 

 
 
 

MAR NOVO 

Manoel Rui Monteiro

E a embarcação aparecia como um barco de recreio. 
Do pescador a musculatura dolorosamente suada 
merecia uma simples pincelada 
de silhueta negra 
impressionismo fácil 
afirmação exótica que o dongo 
não andava sòzinho. 

II

Mas é novo este azul tela rasgada 
é novo o nosso olhar. 
É nova esta forma gestual de espuma 
feita sabor de amor de guerra e de vitória 
em nossas bocas férteis em nossa pálpebras 
de antigo medo clandestino 
soletrando a lágrima 
quando era o nosso mar recordação também 
escravizada: 
caminho secular de ir e não vir.

III 

É nova esta areia 
este marulhar de fogo nos ouvidos 
quase notícia do rebentamento maior 
sobre o inimigo. 
É novo este calor como se o sol 
fosse um ananás coletivos suculentos 
rasgado pelos dados da madrugada mais quente
e mais suave.

IV 

E é bom medir a água evaporada 
sobre a concha 
a alga 
a rocha. 
Medir também teu corpo natural 
onde encontrar a boca 
os pés  
os olhos  
a palavra.
 

V

E é bom verificar as mãos. Principalmente  
as nossas mãos humedecidas pelo mar. 
As mãos que tocam as coisas 
As mãos que fazem as coisas 
As mãos. As mãos terminal de carga 
e de descarga do nosso pensamento 
As mãos mergulhadas sob a água. 
na (re) descoberta tímida das, essências 
no pulsar submarino de uma nova esperança. 
 

VI

Tudo é fugaz 
entre o desenho do teu pé na areia 
e a onda que desfaz 
a marca 

Entre a guerra e a paz 
retorno fisicamente o poema a onda 
constante meditação primeira. 
Nós e as coisas. 
Nada permanece que não seja 
para a necessária mudança. 

 Que o diga o mar. 

 

 

                 


 
 

PROCURO UM LEÃO 

Rui de Matos 

Ando à procura de um leão 
Que não seja muita grande, 
Que seja terrível na luta. 
Que o temam e amem. 

Quero fazer o retrato de um Leão 
 De olhar doce, 
 De sorriso franco, 
Um Leão alegre 
Sem reservas. 
Um Leão imenso 
No seu amor. 

Chamá-lo-ei 

HOJI IA HENDA 

Procuro um Leão 
Um Leão generoso 
Que divide o seu pão 
E que dá a Vida. 

Procuro um Leão 

 Duro e implacável 
 Com os seus inimigos... 
 Esse Leão 
 Doce e humano 
 Amigo e simples 
Chamá-lo-ei 

HOJI IA HENDA 

Ando à procura de um Leão 
 Que sorria da derrota, 
 Com tanta fé na Vitória. 

Procuro um Leão 
 Que seja temerário 
Um Leão amado 
Um Leão temido. 

Chamá-lo-ei 

 HOJI IA HENDA 

Hei-de procurá-lo 
  Na terra 
 Procurá-lo 
  No mar 
 Procurá-lo 
  Nos rios 
 Procurá-lo 
  Nas chamas. 
Hei-de encontrá-lo em Angola, 
Farei o seu retrato, 
Chamá-lo-ei. 

 HOJI IA HENDA 

 


 

 


 
 

NOVEMBRINA SOLENE 

Ruy Duarte de Carvalho 

Seu Zuzé, as tuas vacas, como estão? 

Longe daqui, 
subimos os morros 

fomos procurar 
a água que resta 
do ano que passa. 

Senhora Luna 
a farinha 

Está a secar. 

Tarda a chuva 
seca o milho 

a lavra não vai medrar. 

Tchimutengue, meu vizinho 
então por cá? 

Pois que vim te visitar 
te avisar 
que o meu gado vai passar 
aqui por perto. 

Tarda a chuva e é preciso 
procurar o que lhe dar de comer 
o que dar de beber 

o capim está a ficar netro 
está na hora de mudar. 

Imigrante Silva, a tua mulher? 

Está mal. 

Que é do leite para lhe dar 
a carne para lhe engordar? 

E os filhos? 

Estão magrinhos 
doentados 
vão ficar igual ao pai. 

Que é da escola  para lhes dar 
sapatos para lhes calçar? 

Dunduma amigo 
Companheiro Chipa 
Zeca Ernesto, Calembera, 
olhai pelo gado. 
Protegei os pastos. 
Olhai pela vida das fêmeas 
e pela saúde dos machos 

(1972) 

 


 
 

ROMANCE 

Antonio Cardoso 

Stela era a minha pequenina namorada  
nos tempos da minha infância descuidada! 
Para colher o nascer do sol que tinha na boca 
eu corria as barrocas e os areais vermelhos do meu bairro 
e lutava assanhado com outros miúdos brancos e pretos. 
De noite, quando havia muitas estrelas 
e o céu era um buraco muito escuro 
eu deitava-me na areia vermelha e quente do meu bairro 
e no seu colo de menina. 
ficava calado a sentir o tempo passar. 

O miúdo Artur cobiçava-ma 
e que dor grande me doía cá dentro 
se os via juntos a falar. 
Uma vez, numa noite, de mãos dadas, 
sentindo o vendo molhado do tempo das chuvas, 
eu disse-lhe apontando para o alto: 
aquela e a minha estrela, qual é a tua? 
E todas as noites 
ficávamos deitados naquela minha rua antiga do Musseque Braga
a espiar as estrelas que brincavam no céu. 

Stela era a minha pequena namorada 
nos tempos da minha infância descuidada! 
Por ela eu lutava com sardões de todos os tamanhos,  
subia cajueiros impossível de subir 
e era sempre o primeiro nas corridas. 
Ela dava-me os santos que escondia de todos  
como se fora o tesouro da ilha dos piratas. 
E eu ficava muito sério como quando me batiam. 
Um dia a minha pequenina namorada deixou o meu bairro. 
Nesse dia não corri, não lutei, 
não subi aos cajueiros do Musseque Braga 
e os outros miúdos mais novos disseram: está doente. 
E à noite, sozinho,  procurei as duas estrelas 
e chorei como se tivesse apanhado 
a maior tareia da minha vida! 
Stela era a minha pequenina namorada 
nos tempos da minha infância descuidada! 


 

 


 
 

NAMORO 

Viriati da Cruz 

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado 
e com a letra bonita eu disse ela tinha 
um sorrir luminoso tão quente e gaiato 
Como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias  floridas 
espalhando diamantes na fímbria do mar 
e dando calor ao sumo das mangas. 
sua pele macia
era sumaúma... 
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas 
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo 
tão rijo e tão doce
como o maboque... 
Seus seios, laranjas 
laranjas do Loge 
seus dentes...
marfim... 

 Mandei-lhe essa carta 
 e ela disse que não. 

Mandei-lhe um cartão 
que o amigo Maninho tipografou: 
“Por ti sofre o meu coração”  
Num canto - SIM, noutro canto - não 

E ela o canto do NÃO dobrou. 

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei à avó Chica, quimbanda de fama 
a areia da marca que o seu pé deixou 
para que fizesse um feitiço forte e seguro 
que nela nascesse um amor como o meu... 
 E o feitiço falhou 

Esperei-a de tarde, á porta da fábrica, 
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficámos num banco do largo da Estátua,

afaguei-lhe as mãos... 
falei-lhe de amor...e ela disse que não. 

Andei  barbado , sujo, e descalço. 
como um mona-ngamba. 
Procuraram por mim 
Não viu... (ai, não viu...?) Não viu Benjamim?” 
E perdido me deram no morro da Samba. 

Para me distrair 
levaram-me ao baile do sô Januário 
mas ela lá estava num canto a rir  
contando o meu caso  ás moças mais lindas do Bairro Operário 

Tocaram uma rumba dancei com ela  
e num passo maluco voámos na sala  
qual uma estrela riscando o céu ! 
E a malta gritou : “Ai Benjamim !”  
Olhei-a nos olhos
sorriu para min 
pedi-lhe um beijo
e ela disse que sim. 

 


 
 
 
 

POEMA DA ALIENAÇÃO 

             Antonio Jacinto 

Não é este ainda o meu poema 
o poema da minha alma e do meu sangue 
não  

 Eu ainda não sei nem posso escrever o meu poema  o grande poema que sinto já circular em mim 

O meu poema anda por aí vadio 
no mato ou na cidade 
na voz do vento 
no marulhar do mar 
no Gesto e no Ser 

O meu poema anda por aí fora 
envolto em panos garridos 
vendendo-se 
vendendo 

 “ma limonje ma limonjééé” 

O meu poema corre nas ruas 
com um quibalo podre à cabeça 

oferecendo-se  
oferecendo
 

“carapau sardinha motona 
jí ferrera ji ferrerééé” 

O meu poema calcorreia ruas 
“olha a probíncia” “diááário” 
e nenhum jornal traz ainda 
 o meu poema 

O meu poema entra nos cafés 
“amanhã anda a roda amanhã anda a roda” 
e a roda do meu poema 
gira que gira 
volta que volta 
nunca muda 

“amanhã anda a roda 
amanhã anda a roda” 

O meu poema vem do Musseque 
ao Sábado traz a roupa 
à Segunda leva a roupa 
ao Sábado entrega a roupa e entrega-se 
à Segunda entrega-se e leva a roupa 

O meu poema está na aflição 
da filha da lavadeira 
esquiva 
no quarto fechado 
do patrão nuinho a passear 
a fazer apetite a querer violar 

O meu poema é quitata 
no Musseque à porta caída duma cubata 

 “remexe remexe 
 paga dinheiro 
 vem dormir comigo” 

O meu poema joga a bola despreocupado  
no grupo onde todo o mundo é criado 
e grita 

 “obeçaite golo golo” 

O meu poema é contratado 
anda nos cafezais a trabalhar 
o contrato é um fardo 
que custa a carregar 

 “managambééé” 

 O meu poema anda descalço na rua 

O meu poema carrega sacos no porto 
enche porões 
esvazia porões 
e arranja força cantando 

 “tué tué trr 
 arrimbuim puim puim” 

O meu poema vai nas cordas 
encontrou cipaio 
tinha imposto, o patrão 

esqueceu assinar o cartão 
vai na estrada 
cabelo cortado 

 “cabeça rapada 
galinha assada 
 ó Zé” 

picareta que pesa 
chicote que canta 

O meu poema anda na praça
trabalha na cozinha
 
vai à oficina 
enche a taberna e a cadeia 
é pobre roto e sujo 
vive na noite da ignorância  
O meu poema nada sabe de si 
nem sabe pedir 
O meu poema foi feito para se dar 
para se entregar 
sem nada exigir 

Mas o meu poema não é fatalista 
o meu poema é um poema que já quer 
e já sabe 
o meu poema sou eu-branco 
montado em mim – preto 
a cavalgar pela vida. 

 


 
 


 
 

CRIAR 

Agostinho Neto 

criar criar 
criar no espírito criar no músculo criar no nervo 
criar no homem criar na massa 
criar 
criar com os olhos secos 

Criar criar 
sobre a profanação da floresta 
sobre a fortaleza impúdica do chicote 
criar sobre o perfume dos troncos serrados 
criar 
criar com os olhos secos 

Criar criar 
gargalhadas sobre o escárnio da palmatória 
coragem nas pontas das botas do roceiro 
força no esfrangalhado das portas violentadas  
firmeza no vermelho sangue da insegurança 
criar 
criar com os olhos secos 

Criar criar 
estrelas sobre o camartelo guerreiro  
paz sobre o choro das crianças 
paz sobre o suor sobre a lágrima do contrato 
paz sobre o ódio 
criar 
criar paz com os olhos secos 

Criar criar 
criar liberdade nas estradas escravas 
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor 
sons festivos sobre o balanceio dos corpos em forcas simuladas 
criar 
criar amor com os olhos secos. 

 


 
 
 
 

SE A MINHA TERRA É DE COR 

               Mauricio Almeida Gomes 

A minha terra tem  cor... 

Eu não o conheço outra terra 
onde haja tanta beleza 
nas síncopes coloridas  
dum fim de tarde... 

Inda está p´ra ser fadado 
um tão nevado luar 
que derrame tanto leite 
em noites de Lua cheia... 

No meu corpo bronzeado,  
na minha terra tão linda, 
há orgias embriagantes 
de cor. 

 — Se a minha terra é de cor!... 

Na chagar sangrenta 
da rubra queimada 
sem fim  
queimando dentro de mim, 
e no pesado negrume 
de certas noites sem lua. 
e com a lume apagado 
no rutilante luzeiro 
onde foi crucificada a minha Raça. 

  A minha terra tem cor!... 

Nos frutos tão bons, 
nas águas imensas, 
nos campos lavrados, 
nos céus anilados, 
nos corpos tão negros 
dos pretos, 
das pretas, 
nas estrelinhas trementes, 
lágrimas de Deus 
derramadas 
pelos negros inocentes
  
já doces tonalidades 
mistérios, 
suavidades, 
cambiantes fascinantes 
de cor. 

 — Se a minha terra é de cor!...

 

 

 


 
 

A UMA QUISSAMA 

Cordeiro da Matta 

E na manhã fria, nevada 
dessas manhãs de cacimbo 
em que uma alma penada 
não se lembra de ir ao limpo, 
eu vi formoso, correcta 
não sendo europeia dama  
a mais sedutora preta 
das regiões da Quissama. 

Mal quinze anos contava 
e no seu todo brilhava 
o ar mais doce e gentil! 
Tinha das mulheres lindas 
as graças belas, infindas 
de encantos, encantos mil. 

Nos lábios, postos que escuros, 
viam-se-lhe risos puros 
em borboletões assomar. 

Tinha nos olhos divinos  
revérberos cristalinos 
e fulgores... de matar! 

Radiava-lhe na fronte 
como em límpido horizonte 
radia mimosa luz, 
da virgem casta a candura
 
Que sói à formosura 
a graça que brota à flux!... 
Embora azeitados panos 
lhe cobrissem os lácteos pomos 
denunciavam os arcamos 
de dois torneados gomos...