Francisco Madariaga  (1927-2000)  por Floriano Martins

  Francisco Madariaga e os desejos do zelo da terra
  Entrevista 
  Obra poética

 


 

 

    
  Francisco Madariaga e os desejos do zelo da terra

                                                                      Floriano Martins

    Em recente número da revista Agulha se publicou um artigo de Luis Bravo sobre Francisco Madariaga, o poeta argentino nascido em 1927 e que morreu no último setembro.
Este poeta esteve com Aldo Pellegrini e Enrique Molina naqueles eventos centrais da presença do Surrealismo na Argentina, nos anos 50, sobretudo por sua participação nas revistas A partir de cero e Letra y línea.
    Também foi publicado pela revista Poesía Buenos Aires, ocasião em que Raúl Gustavo Aguirre, que a dirigia, alerta para a autenticidade de quem referia-se ao poeta como aquele que chora "entre os homens [seu] desacordo com a linguagem".
   Como todo profundo desacordo, defendia justamente a afirmação de uma linguagem outra, limpa de todos os vícios sangrentos da retórica.
   Discordava, com toda sua poesia, daquela invocação de Juan Ramón Jiménez - "Inteligência, dá-me o nome exato das coisas" -, discrepância esta já mencionada por Juan Antonio Vasco - outro de seus companheiros de geração -, no prólogo à edição de Poemas (FUNDARTE, Caracas, 1983).
    Ali comenta Vasco que Madariaga não se submete à inteligência, o que em  momento algum significa negar-lhe.
   "A inteligência de Madariaga não lhe converte em seu objeto, a cultura de Madariaga não substitui seu homem, a escritura de Madariaga não lhe arrebata a província, a palavra de Madariaga somente é corrosiva para quanto mereça destruição."
   O que diz Antonio Vasco é emblemático para compreender a poesia deste poeta que dizia de si ser "aquele que tem os cabelos do lado do amor". Mesmo amor que não se pode imaginar sem compartilhar existência com a poesia e a liberdade.
    Nascido em Corrientes, não se fez propriamente um cantor de Corrientes, mas antes um defensor de que o homem deve compreender sua relação com o universo que o cerca e define, sendo fiel não ao universo mas à relação. Assim, não converteu seu pântano natal em exotismo turístico, tampouco fechando-se em si como parte da terra desafeita ao diálogo. Escreveu toda a sua vida, fez com que cada momento vivido comparecesse à embriaguez de infinito de seus versos, afirmando a intrínseca relação entre vida e poesia.
   Em uma mesma imagem se confundiam personagens como a mãe morta, o pântano e a linguagem.
   Outro de seus admiráveis companheiros de viagem poética, Carlos Latorre - penso agora em uma admirável poesia argentina que se está perdendo no tempo -, mencionou certa vez que Madariaga "opera o prodígio de oferecer uma das versões mais apaixonadas e transcendentes de seu próprio país, e por extensão da América, assistido por  esse misterioso poder capaz de fundir em uma só as almas da geografia e seu habitante".  
    Que outra bela definição de sua poesia! E vejam o que dizia o próprio poeta a este respeito: "Não poderei sair nunca do feitiço natal / até não haver terminado com as cóleras e os resplendores dos assassinatos e as misérias artificiais do desamparo, / reverberando nas paisagens ainda mais que naturais". E para que fique ainda mais claro o que disse Latorre, logo em seguida Madariaga situa o âmbito de sua poética: "Aterrorizado pelas paisagens da poesia,/ volta a sangrar-me a poesia pela boca" . E não lhe sangrou como retórica.
  A poesia de Francisco Madariaga inclui livros como El pequeño patíbulo (1954), El delito natal (1963), Tembladerales de oro (1973), Llegada de un jaguar a la tranquera (1980) Resplandor de mis bárbaras (1985), dentre outros.
   Como é comum à grande maioria dos poetas em nosso continente,  os livros se perdem no tempo e por vezes são parcialmente recuperados em antologias.
    Desde 1982, Madariaga começa a ter sua obra recuperada, em uma série de volumes. No entanto, segue restrita ao âmbito argentino, com as comuns limitações editoriais. A fraudulenta recusa à publicação de poesia põe sempre em dúvida a capacidade humana de julgamento, uma vez que não faltam exemplos de medíocres versos alcançando bons índices de venda. Tudo está ligado à ausência de uma palavra verdadeira, aquela que torna a linguagem vibrante e corrente. Recorro uma vez mais a Juan Antonio Vasco, quando situa que "o uso preponderante da palavra industrial acelera sua poluição".
   A este respeito têm escrito argentinos como Rodolfo Alonso e Ernesto Sabato, recentemente. Francisco Madariaga contribuiu com sua obra poética, que é verdadeiramente o que se espera de um poeta. Na mesma manhã de sua morte, escrevi uma carta ao poeta Alfredo Fressia, onde me referia basicamente a essa poluição de que fala Vasco. Enterramos Madariaga e logo enterraremos
muitos outros nomes fundamentais da poesia (músicos, pintores, dramaturgos, romancistas, escultores, dançarinos) na América Hispânica. Para os brasileiros, qual significado isto terá? Decerto que as festividades em torno do bloomday joyceano serão sempre mais condizentes com nossa fraudada utopia.
O que temos a seguir é uma entrevista que lhe fiz em 1987. O poeta se mostra sempre um peregrino de si mesmo, um incansável andarilho por sua própria existência, fundindo em um só todos os tempos, rindo de culpas e promessas de imortalidade ("o rosário ensangüentado da palavra colar"), o inventário degradado de nossa América, mera retórica no calendário político de nossos governos.

 

 



  

 Entrevista 

   
 Francisco Madariaga: "Sou apenas um peão do planeta"
                               (entrevista conduzida por Floriano Martins)

- Conhecimento do mundo, ordenação do espírito ("sou aquele que possui os desejos do zelo da terra"), experiência da experiência, duelo com o indizível, caudal de evocações. De que nos fala a poesia?

- A poesia eclode do fundo solar do poeta e projeta-se diretamente nas ventarolas da consciência e no coração dos homens. Não recolhe impurezas em seu caminho, como a prosa; tudo sai por inteiro e a um só tempo, inclusive a história, na imagem.

- Se pensarmos em nomes tão distantes entre si, como Leopoldo Marechal,Jorge Luis Borges, Oliverio Girondo, Leopoldo Lugones, teríamos aí algumas de suas influências?

- Conheci e fui muito amigo de Oliverio Girondo, o maior poeta deste país e um dos enormes poetas latino-americanos. Não creio haver tido nenhuma influência dele, e muito menos de Marechal, Lugones e Borges. Os poetas detodos os tempos, desde Hesíodo, mesclaram-se com a minha natureza e os homens pânicos de Corrientes, e eu sou apenas um peão do planeta.

- Corrientes é o ponto de partida de tua poesia. Como disse Juan Antonio Vasco, no prefácio de uma antologia tua publicada na Venezuela em 1983, tornaste Corrientes o "centro de tua própria universalidade autêntica".Achas possível pensar o poema como criação da comunidade, fusão entre realidade e imaginário de uma coletividade? Acreditas que tenhas realizado tal fusão?

- Corrientes é um cosmos, qualquer outra palavra sobre isto terá que ser buscada em meus poemas, se de mim se trata.

- O que significou, no quadro geral de tua obra, tua passagem pelo Surrealismo? Até que ponto o Surrealismo - no que pese o fato de que o grupo formado por Aldo Pellegrini tenha tido um caráter precursor em toda a extensão do idioma - alterou o cenário da poesia argentina?

- A grande tentativa de liberdade, amor, purificação e rebeldia do
Surrealismo, seu grande salto ao amor (e por amor), deixaram, sim, muitas trilhas em mim. Fui um aliado leal do Surrealismo que, já o sabemos, na América se encontra em estado natural. A escrita automática me foi ordenada pelas almas e as fadas de Corrientes, e, repito, fui apenas o peão do planeta diante dessas ordens. Aldo Pellegrini, não se pode esquecer, fez muitíssimo pela verdadeira poesia na América Latina.

- Eis o fragmento de um ensaio de Octavio Paz sobre Castañeda: "as drogas, as práticas ascéticas e os exercícios de meditação não são fins mas sim meios. Se o meio se torna fim, converte-se em agente de destruição. O resultado não é a liberação interior, mas sim a escravidão, a loucura e não a sabedoria, a degradação e não a visão. Isto é o que tem ocorrido nos últimos anos. As drogas alucinógenas têm se tornado potências destrutivas porque têm sido arrancadas de seu contexto teológico e ritual." O que pensa a este respeito? Alguma vez recorreste às drogas na feitura de teus poemas?

- Estou de acordo com o fragmento de Paz sobre as drogas. As únicas drogas que tenho conhecido são as que exalam os grandes rios, pântanos, lagoas e palmeirais de Corrientes, vapores com cheiro de serpentes e sáurios e cavalos.

- Em teu livro Resplandor de mis bárbaras (1985) há uma citação de
Baudelaire: "Deus é o único ser que para reinar não tem necessidade de existir". Qual é o teu Deus?

- Meu Deus é o DEUS RAS. do horizonte, entre o céu, a terra e a água. Somente a ele me recomendo.

- Tiveste algum contato com a poesia de Jacobo Fijman? O conheceste pessoalmente? Poderia nos falar dele, de até que ponto teria sido injustiçado dentro do panorama geral da poesia argentina (penso, por
exemplo, no caso de Juan Ortiz)?

- Conheço a obra de Fijman, é válida sua inserção no panorama poético argentino. Quanto a Juan L. Ortiz, foi um grande e verdadeiro poeta. Também fui seu amigo.

- Mário Benedetti declarou certa vez que as ditaduras instaladas ao longo do continente americano seriam o fator determinante do isolamento cultural aí encontrado. Concordarias com ele ou acaso seriam outras as razões de tal isolamento (que ainda hoje persiste)?

- Teríamos talvez que convocar as almas de Bernardo de Monteagudo, na Argentina, e as de Simón Bolívar. Talvez elas pudessem definitivamente nos dar uma luz sobre as causas do isolamento em geral.

- Gostarias de falar sobre a situação da atual poesia argentina? Penso em uma verdadeira avalanche de nomes: Roberto Juarroz, Leónidas Lamborghini, Santiago Perednik, Victor Redondo, Hugo Pedaletti, Arturo Carrera, Nahuel Santana, Néstor Perlongher etc. Quais, a teu ver, as mudanças ocorridas na poesia argentina após os ventos fortes do Surrealismo?

- Enrique Molina, Edgar Bayley, Olga Orozco, Hugo Gola e outros, estão em plena e elevada maturidade. Estou de acordo com que recordes, por exemplo, Victor Redondo e Arturo Carrera - eu acrescentaria outros, como Daniel Freidemberg e Diana Bellessi, e muitos outros jovens que caminham muito bem, e que são poetas.

 

 



 


Obra poética

  • 1954 - El Pequeño Patíbulo (Ediciones Letra y Línea, Buenos Aires).

  • 1959/60 - Las jaulas del sol (Ediciones A partir de Cero, Buenos Aires).

  • 1963 - El delito natal (Editorial Sudamericana, Buenos Aires).

  • 1967- Los terrores de la suerte (Editorial Biblioteca, Rosario).

  • 1968 - El asaltante veraniego (Ediciones del Mediodía, Buenos Aires).

  • 1973 - Tembladerales de oro (Ediciones Interlínea, Buenos Aires). Reeditado con introducción de Víctor Redondo por El Buho Ediciones, Rosario, 1985

  • 1976 - Aguatrino (Ediciones Edición del Poeta, Buenos Aires).

  • 1980 - Llegada de un jaguar a la tranquera ( Ediciones Botella al Mar, BuenosAires).

  • 1983 -  Poemas (Autoselección, publicada por Ediciones Fundarte, en Caracas - Venezuela, con introducción de Juan Antonio Vasco).

  • 1982 - La balsa mariposa (Primera Obra Reunida, editada por la Municipalidad de la ciudad de Corrientes, con introducción de Oscar Portela).

  • 1985 - Una acuarela móvil (Ediciones El imaginero, Buenos Aires).

  • 1985 - Resplandor de mis bárbaras (Ediciones Tierra Firme, Buenos Aires)

  • 1988 - El tren casi fluvial (Obra Reunida, editada por el Fondo de Cultura Económica de México en Buenos Aires).

  • 1997- País Garza Real (Editorial Argonauta, Buenos Aires).

  • 1998 - Aroma de apariciones (Ediciones Último Reino, Buenos Aires).