Chile

 

   Vicente Huidobro


 
- Vicente Huidobro desenhado por Pablo Picasso 

 
 

 

 

 

   Altazor - Canto I (fragmentos) 

     - Tradução de  Carlos Lima

     Altazor ou A rebelião da palavra
                                  Saul Yurkiévich 

       - Tradução de Luís Sérgio dos Santos



 

 


 


ALTAZOR- CANTO I
(Fragmentos)

                                                    Vicente Huidobro

                                                     Tradução: Carlos Lima.

Cai
Cai eternamente
Cai ao fundo do infinito
Cai ao fundo de ti mesmo
Cai o mais baixo que se possa cair
Cai sem vertigem
Através de todos os espaços e todas as idades
Através de todas as almas de todos os anseios e todos os naufrágios
Cai e queima ao passar os astros e os mares
Queima os olhos que te olham e os corações que te esperam                                                
Queima o vento com tua voz
O vento que se enreda em tua voz
E a noite que tem frio em sua gruta de ossos

Sou eu que estou falando neste ano de 1919
É o inverno
A Europa já enterrou todos os seus mortos
E mil lágrimas fazem uma só cruz de neve
Olhai estas estepes que agitam as mãos
Milhões de operários compreenderam enfim
E levantam aos céus suas bandeiras de aurora
Venham venham nós esperamos porque sois a esperança
A única esperança
A última esperança

A consciência é amargura
A inteligência decepção
Só nos limites da vida
Pode-se plantar uma pequena ilusão
Olhos ávidos de lágrimas fervendo
Lábios ávidos de maiores lamentos
Mãos enlouquecidas de tatear trevas
Buscando mais trevas
E esta amargura que se prolonga em minha memória

E este enterro na minha memória
Este longo enterro que atravessa todos os dias minha memória
Seguir
Não
Que se quebre o andaime dos ossos
Que se abatam as vigas do cérebro
E o furacão arraste os pedaços para o nada

Onde o vento açoita Deus
Onde ainda ressoa meu violino gutural
Acompanhando o piano póstumo do Juízo Final

És tu o anjo caído
A queda eterna sobre a morte
A queda sem fim de morte em morte
Enfeitiça o universo com tua voz
Agarra-te a tua voz enfeitiçador do mundo
Cantando como um cego perdido na eternidade

Anda em meu cérebro uma gramática dolorosa e brutal
A morte contínua de conceitos interiores
E uma última aventura de esperanças celestes
Um tumulto de estrelas imprudentes
Caídas dos sortilégios sem refúgio

Liberdade sim liberdade de tudo!
Da própria memória que nos possui
Das profundas vísceras que sabem o que sabem
Por causa destas feridas que nos atam ao fundo
E nos quebram os gritos das asas

Tudo em vão
Dá-me a chave do naufrágio
Dá-me uma certeza de raízes em calmo horizonte

Um descobrimento que não fuja a cada passo
Ó dá-me um belo naufrágio verde
Sou uma orquestra trágica
Um conceito trágico
Sou trágico como os versos que batem na fronte e não podem sair
Arquitetura fúnebre
Matemática fatal e sem esperança alguma
Camadas superpostas de misteriosa dor
Camadas superpostas de ânsias mortais
Subsolos de intuições fabulosas

Sou todo o homem
O homem ferido por quem sabe quem
Por uma flecha perdida do caos
Humano terreno desmedido
Sim desmedido e o proclamo sem medo
Desmedido porque não sou burguês nem raça fatigada

Sou bárbaro talvez
Demasiado enfermo
Bárbaro limpo de rotinas e caminhos marcados
Não aceito vossas cadeiras de segurança cômodas
Sou o anjo selvagem que caiu uma manhã
Em vossas plantações de preceitos
Poeta

Antipoeta
Culto
Anticulto
Animal metafísico carregado de angústias
Animal espontâneo imediato sangrando seus problemas
Solitário como um paradoxo
Paradoxo fatal
Flor de contradições dançando um fox-trot
Sobre o sepulcro de Deus
Sobre o bem e o mal
Sou um grito e um cérebro que sangra

O sol nasce em meu olho direito e se põe em meu olho esquerdo
Em minha infância uma infância ardente como um álcool
Sentava-me nos caminhos da noite
Para escutar a eloqüência das estrelas

E nada poderá rir ante o vazio
Que me importa o desprezo do homem-formiga
Nem a do habitante de outros astros?
Eu não sei deles nem eles sabem de mim
Eu sei de minha vergonha da vida de meu asco celular
Da mentira abjeta de tudo quanto edificam os homens
Os pedestais de ar de suas leis e ideais

O mundo entra em mim pelos olhos
Entra pelas mãos entra pelos pés
Entra pela boca e sai
Em insetos celestes ou nuvens de palavras pelos poros

(Transcrito do jornal Alguma Poesia-Agosto/setembro/83)             

 

   

                 

          ALTAZOR OU A REBELIÃO DA PALAVRA

                                              S
aul Yurkiévich

                       Tradução:  Luís Sérgio dos Santos

                    Falo em uma língua  molhada em mares não nascidos.                                                                                                                               

     Quando falamos de Altazor, a denominação que melhor se enquadra é a de aventura em seu sentido mais heróico, e de intenção perigosa. Seu prefácio e sete cantos constituem um ciclo orgânico, um processo progressivo, uma prospecção coerente; intentam o translocamento da linguagem em busca de um verbo puramente poético. Neste itinerário Huidobro toma a poesia no ponto de transformação em que a deixou Rimbaud e se propõe avançar forçando a palavra para extrair-lhe uma expressividade cada vez menos sujeita à realidade exterior, ao mundo dos objetos, a toda racionalização de sua experiência. É uma tentativa de desarticular a língua natural, de desmembrá-la e ir suplantando-a por outra que manifeste diretamente nossa interioridade, não interferida por medições conceituais, ou pelo peso objetivo das palavras. Um caminho que vai do pensamento à pura fonação, passando por todos os estados intermediários.
     A revolta de Altazor começa por uma linguagem carregada de conteúdo, de informação, de ideologia:
     Se aceitamos a dicotomia de Saussure, que distingue dentro da linguagem um ingrediente social, a língua, e outra individualidade, a palavra, podemos dizer que Huidobro se insubordina com a língua e seu sistema de normas, contra a língua cujo código de sinais convencionais querem lhe uma percepção pré concebida da realidade. Huidobro busca acrescentar os poderes da palavra, palavra que não seja uma combinação de estereótipos e sim um verdadeiro ato criador; forjar uma palavra não contaminada, não contrária à direção natural da língua.

 
  
Nunca no âmbito do castelhano, a singularização idiomática foi levada a tal extremo. Huidobro vai convertendo paulatinamente a língua em puro idioleto, em uma linguagem à margem da coletividade, em um ato completamente pessoal. Se propõe a participar na manipulação da linguagem, destino, e sobretudo, na sua fabricação.
      Primeiro postula uma poética, uma ética e uma metafísica sobre a qual assenta a sua cosmogonia; logo a põe em prática. Preconiza e executa uma poesia vital, agnóstica, intuitiva, onírica, ilógica, lúdica, liberta. O decurso de Altazor pressupõe, como todo processo idiomático, certo código, um princípio de um sistema. A decomposição e recomposição do mundo e de sua correlação, a linguagem, se operam segundo uma práxis sujeita, ainda que não rigorosamente, a alguns módulos, a certas tendências operativas. Analisemos primeiro a doutrina e em seguida a sua exercitação.

     O livro se apóia sobre um mito básico: Altazor (alto azor) encarnação do poeta descendo às profundidades - como Orpheu, como Enéas, como Dante com a ajuda de seu pára-quedas, a poesia, “O cavalo da fuga interminável”. No trajeto se encontra com o criador, ”um simples eco no vazio, formoso como um umbigo”, um deus humorista e zombador que evoca em versão irreverente, entremesclando hierarquias, o engendramento do universo. Este gerador, paródia de dramaturgo, confessa sua decepção ante o mau emprego que os homens tem feito da língua, “a bela nadadora desviada para sempre de sua representação aquática e puramente acariciadora”. Ou seja se tem abusado do uso instrumental da linguagem. Ao ser considerada só mediadora entre os homens e os objetos, a linguagem tem perdido sua energia original; ela tem sido entorpecida ao se enganchar cada palavra ao ombro de uma coisa ; os pés tem sido convertidos em etiquetas. Como livrá-la destas anquiloses de tantas duras crestas? Altazor ouvindo as queixas da divindade conclui: “Se deve escrever uma língua que não seja materna”, há que se perder as manias adquiridas e fingir, mediante descalabros e catástrofes, a sua pureza edênica. E a partir  desta reconquista, mergulhar com ímpeto na “escura lucidez”. A vida é como sua equivalente, a poesia, uma descida aos abismos da existência. E quanto mais real seja a queda, mais poderoso será o refluxo. Quanto mais dentro se chega, mais penetrante e perdurável será o vislumbre: “E quanto mais alto caias, mais alto será o rebote, mais larga a sua duração na memória da pedra”.
     Huidobro se inscreve na linha dos poetas subversivos, dos incendiários, dos românticos a qualquer preço. Para eles a poesia é busca da realidade mais essencial, além da consciência. Ao vislumbre do nosso eu autêntico, se chega através do eu autêntico, se chega através do descarregar dos sentidos, mediante uma ascensão bárbara (“Bárbaro limpo de rotinas e de caminhos marcados”), um despojamento do conformismo, dos controles interpostos entre nós e o mundo primogênito.
     
Altazor nos incita a fundirmos com o universo em uma comunhão alucinada. Poesia equivalente aqui a ”febre e vertigem interna”, a “hóstia angustiada e ardente”, a desordem, sortilégio, desmesura, tempestade. Estas apelações extremas delatam a alta temperatura emocional, o estado de paroxismo, de delírio a que poeta deve tender em sua trágica submersão até o mais profundo de si mesmo:
Huidobro se move sempre em um plano cósmico; quase não aparecem referências ao cotidiano. Sua poesia, apesar de sair das margens e do extremismo, é todavia de categoria olímpica.
      Para expressar esses “subsolos de intuições fabulosas“, há que se retratar a natureza primitivo da linguagem, a de um estado pré-utilitário, místico, onde há palavra não é uma intermediária, senão uma  gênese do mundo.
     
O poeta não pode criar um estado de serena vigilância, impossível consumar o ritmo sem uma certa loucura, sem que as palavras apresentem queimaduras. A gestação de um poema se compara com o crescimento de um arbusto; a boca do poeta se situa na porta do sono e seus olhos, na gruta da hipnose, até que o mundo o penetre, o posicione, o fecunde e salgue em forma de poema. Este verbo existencial, ontológico, se rebela contra a poesia intuitiva, estetizante, refinada; contra ela se lança Altazor com os seus ditos setenciosos:

           Poesia ainda e poesia poesia
           Poética poesia poesia
           Poesia poética de poético poeta
           Poesia
           Demasiada poesia

    Tal é a viagem que realiza Huidobro em Altazor, desde o dizer expresso até o tácito sugerir de uma pura orquestração de fonemas.
     O acerto e a potência de uma poesia dependem da adequação entre a vontade expressiva e os meios expressivos. O poeta se instala na linguagem para forçá-la à comunicação de algo que um pequeno tratamento normal da palavra é incapaz de transmitir. Se Huidobro condena a linguagem literária por anquilosada e impotente, com que ferramentas contará para adentrar-se no ser do homem e do mundo? Para chegar à suprema realidade? São as mesmas que outrora, entretanto, respeite a estrutura da linguagem articulada. No princípio mantém como Rimbaud, nos limites da elocução normal. Não é normal o que diz, mas sim a maneira de dizê-lo. As modificações se operam só no plano do significado, logo após alteram paulatinamente os significantes. Ao passar do prefácio aos cantos, suprime a pontuação.

    
No começo do processo, se empenha em desprender-se da cessão do mundo objetivo. Sua fantasia estabelece nexos imaginários, percebidos pelos sentidos interiores através de um tempo e espaços mentais, altera as distâncias e transloca a cronologia. Ou seja, a realidade é desmantelada e recomposta segundo uma ordem puramente poética; fragmentos em aparente incongruência aparecem ligados por relações pessoais de sentido. A metáfora pura é um corte de amarras, o pára-quedas que permite descer a essa região abaixo de onde tudo o que existe retoma o seu parentesco primitivo, volta a fusionar-se com a sua unidade original.  
     Huidobro se esforça para atrair das imagens e das metáforas todo o seu poder semântico; as exprime angustiado até o esgotamento, para que transfiram esse torvelinho avassalador que aflora das profundezas e para sair, luta. Até o Canto III a poesia se aproxima ainda dos modelos habituais, porém levados a sua extrema tensão. Nesta altura, exclama basta: basta de poesia ornamentada, “de manicure de língua”. E para desafiá-la, para dar ao verbo seus poderes mágicos, compõe  um encadeamento de comparações disparatadas.
     Quando o rastro dos versos se resultam estreitos, quando seu desorientar e sua desesperação rompem incontidas, Huidobro transborda para a extensão maior da prosa, uma presa sem pontuação e completamente metafórica. No Canto IV começa o descalabro; Altazor repete página atrás de página: "Há pressa há pressa", "Não há tempo a perder". As comportas se mostram e se rompem, o poeta se lança ao rio revolto. Há não só o mundo desmantelado e recomposto, ago
ra são as palavras que se desintegram e se reconstituem em nova associação de suas partes.
     Um processo de desintegração, de renunciamento paulatino, de condenação até chegar ao "único espaço”  interior onde a chave da eternidade é uma pura música verbal, esse magma de onde apenas ressoam ecos de vocábulos conhecidos. Tal é o caminho que Altazor nos fará percorrer desde o Canto V ao VII, passando por toda  classe de mutações. No Canto V as metástases, as desordens no interior das palavras alcançam seu ponto mais alto. 
     São os substantivos, ou seja as coisas, transtornadas; os verbos, as ações, são regulares. Há no Canto V a confusão das categorias gramaticais que também invade o campo verbal: "A cascata que é cabeleireira sobre a noite / Enquanto a noite é cama e descansar". No Canto VI a linguagem se contrai, se torna telegráfica, se substantiva e os verbos desaparecem quase que por completo; os vocábulos entram em franca harmonização fônica, rítmica, acentuada para aprofundar a cova entre a expressão normal e a poética.

          Cristal meu
          Banho eterno

   
                          o nó noite
         
Em glória trinado
        
         
            sem desmaio
        
Ao tanto prodígio
    
     Com sua estátua
        
Noite e ramo
       
                   Cristal sono
           
               Cristal viagem
         Flor e noite
         Com sua estátua
       
                    Cristal morte

     Seja qual for a margem de êxito ou de fracasso da tentativa, nenhum poeta manipulou com tamanha riqueza de registro; o desdobramento de Altazor é não só horizontal, é também vertical; ocorre tanto na extensão como na profundidade.  

                       (Transcrito do jornal Alguma Poesia - Agosto / setembro /1983)

    *Saul Yurkiévich é poeta e ensaísta. Nasceu na Argentina em 27.11.31.