Poemas traduzidos por Márcio  Schiavo

Agora aprendo - Victor Casaus
Exílios - Heberto Padilla
A manhã seguinte - Guillermo Rodrigues Rivera
Uma garota muito estranha - Luiz Suardíaz


 

       

                                                    

AGORA APRENDO                            

                                  Victor Cásaus 

Agora aprendo que não se deve regressar demasiado rápido
ao lugar onde se amou.
Olhe como estão as coisas
a toalha, o telefone, a porta
( a luz no entanto está acesa)

e sobre tudo esse vazio na almofada
esta forma de ti que não vai sumir
( assim parece ). 

Se agora chovesse lá fora   ( uma garoa ou uma
enxurrada, dá no mesmo e não vem ao caso )
então é melhor que me vire e adormeça
( se é possível ) ou que te chame mas isso pertence
ao livro de fábulas do mundo.

 

           

 

EXÍLIOS 

                
Heberto Padilla 

Mãe, tudo está mudado
até o outono é um sopro enfurecido
que abate o pequenino bosque.
Já nada nos protege contra a água
e a noite. 

Tudo se transformou.
A ardência do ar entra
nos meus olhos e nos teus
e aquele menino que ouvias
correr desde a obscura sala,
já não vive.
Agora tudo está mudado.
Abre portas e armários
para que explora distante essa infância
fustigada no nevoeiro
Para que nunca vejas o velho e pedregoso
caminho de minhas mãos,
para que não me sintas vagar
pelas ruas deste mundo
nem descubras a casa vazia
de folhas e de homens
onde o mesmo de ontem segue
buscando saudades, anseios.

 

 

 

A MANHÃ SEGUINTE  

                       
Guilhermo Rodrigues Rivera 

Não somos crianças
recolhidas no seio do mundo,
nem você nem eu
Nem o que conserta bicicletas.
Não somos corpos vazios
nem insignificantes ao reflexo
de nossa estatura. Não podemos
passar como um habituado mês
e suas semanas sem deixar outra coisa
a não ser papéis para o lixeiro.
Não seremos,
como nos casamentos na igreja,
Um simples nó de gravata.
A terra é mais que um grande hotel
para molhar as madrugadas mais escuras. 

Mais
que a desconhecida
mesa que comemos
a falta do lar.  Vivemos
em uma cabana erguida por nossa família,
em uma casa de aço e cristal e troncos de
madeira
mais antiga que o lodo e que a chuva.
Prolongamo-nos
e respiremos um ar
fora do alcance
de nossos pulmões limitados.
A manhã pela manhã
seremos árvores e dentes
seremos
uma proteção girando no jogo
das meninas
ou simples gotas de suor.
E  estamos
você e eu,
com nosso silêncio aproximado,
no almoço de cada família.

 

 

 

UMA GAROTA MUITO ESTRANHA

                                                
Luiz Suardíaz 

Falei-lhe de Kafka ( uma raridade na época )
do compromisso que tem cada um,
das elegias de Duíno e de outras conquistas
de Rainer M. Rilke.
Acompanhei-a a um exame de francês,
a uma representação de Calígula, a um cinema
atroz onde passavam Júlio Cezar,
na versão de Marlon Brando. 

Dei-lhe meu telefone, uma biografia de Tolstoi
ou Dostoiewsky, uma lapiseira verde, uma preciosa
gravação do “Pássaro de Fogo”. 

Mostrei-lhe todas as grades de velho estilo
que conhecia com perfeição, as livrarias secretas,
as paisagens dos arredores, um ídolo antigo
que me emprestaram os amigos, alguns poemas
uma vez deixou perceber que não pensava 
nos homens para nada.
Não voltamos a nos encontrar desde então.