In:
Antologia da Poesia
Portuguesa Contemporânea,
organizada por Carlos Nejar, a partir de Vitorino Nemésio; Massao Ohono / Roswita Kempf - Editores.
Seleção
de poemas: Luís Sérgio dos
Santos.
DOMINGO
Luís Veiga Leitão
Hoje
é domingo? Não e sim,
Para ser dia que se vive
mergulho as mãos em mim
e tiro os domingos que tive.
CANÇÃO
Eugênio de Andrade
Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.
Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão.
UNIVERSALIDADE
Miguel
Torga
Aqui declaro que não tem fronteiras.
Filho da sua pátria e do seu povo,
A mensagem que traz é um grito novo,
Um metro de medir coisas inteiras.
Redonda e quente como um grande abraço
De polo a polo, a sua humanidade,
Tendo raízes e localidade,
É um sonho aberto que fugiu do laço
Vento da primavera que semeia
Nas montanhas, nos campos e na areia
A mesma lúdica semente,
Se parasse de medo no caminho,
Também parava a vela do moinho
Que mói depois o pão de toda a gente.
CASA
DAS SEMENTES
Antônio Osório
É
triste não possuir uma casa de sementes.
Não
adianta amar essas partículas ali ociosas,
nem
desejar que nidifiquem sem granizo
e
irrompam como a chama de uma vela.
É
triste pagar um preço pelo que há-de nascer,
que o bersim perca a cor alazã penetrando na terra
e o trevo da Pérsia alimente a boca das reses.
É triste que não recusem essa densa, pródiga,
obstinada
servidão, a vitalidade apaixonada pelo sol,
e
não façam, como um camponês, as suas contas,
exigindo
a Deus e aos homens o salário da maquinação.
CARTA A
MEUS FILHOS
SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA
Gloria
de Guido Cavalcanti
Não sei, meus filhos, que
mundo será o vosso,
É possível, tudo é
possível, que ele seja
aquele que eu desejo para
vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a
dificuldade que advém
de nada haver que não seja
simples e natural.
Um mundo em que tudo seja
permitido,
conforme o vosso gosto, o
vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos
outros, o respeito dos outros por vós,
E é possível que não seja
isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para
viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como
devemos lutar,
por quanto nos pareça a
liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas
uma fiel
dedicação à honra de
estar vivo.
Um dia sabereis que mais que
a humanidade
não tem conta o número dos
que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no
que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de
diferente,
e foram sacrificados,
torturados, espancados,
e entregues hipocritamente
à secular justiça,
para que os liquidasse "com suma piedade e sem
efusão de sangue"
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma
esperança, ou muito apenas
à fome irresponsável que
lhes roía as entranhas,
foram estripados,
esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados
tão anonimamente
quanto haviam vivido ou suas cinzas dispersas
para que
delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma
raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham
cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas
também aconteceu
e acontece que não foram
mortos.
Houve sempre infinitas
maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente,
delicadamente,
por ínvios caminhos quais
se diz que não são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este
heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil,
acontecia em Espanha
há mais de um século e que
por violenta e injusta
ofendeu o coração de um
pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito
grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é,
meus filhos.
Apenas um episódio, um
episódio breve,
nesta cadeia de que sois um
elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue
e algum sémen
a caminho do mundo que vos
sonho.
Acreditai que nenhum mundo,
que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a
alegria de tê-la.
É isto o que mais importa -
essa alegria.
Acreditai que a dignidade em
que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria
que vem
de estar-se vivo e sabendo
que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou
sofre ou morre
para que um só de vós
resista um pouco mais
à morte que é de todos e
virá.
Que tudo isto sabereis
serenamente,
sem culpas a ninguém, sem
terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou
indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia,
um dia- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga
-
não hão-de ser em vão.
Confesso que
muitas vezes, pensando no
horror de tantos séculos
de opressão e crueldade,
hesito por momentos
e uma amargura me submerge
inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas,
mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses
milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o
que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus
filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não
viveram, aquele objeto
que não fruiram, aquele
gesto
de amor, que fariam
"amanhã".
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com
cuidado, como coisa
que não é só nossa, que
nos é cedida
para a guardarmos
respeitosamente
em memória do sangue que
nos corre nas veias,
da nossa carne que foi
outra, do amor que
outros não amaram porque
lho roubaram.
A
CASA DO MUNDO
Luiza Neto Jorge
Aquilo
que às vezes parece
um
sinal no rosto
é
a casa do mundo
é
um armário poderoso
com
tecidos sanguíneos guardados
e
a sua tribo de portas sensíveis.
Cheira
a teias eróticas. Arca delirante
arca
sobre o cheiro a mar de amar.
Mar
fresco. Muros romanos. Toda a música.
O
corredor lembra uma corda suspensa entre
os
Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas
que cheiram ao ar de fora
à
núpcia do ar com a casa ardente.
Luzindo
cheguei à porta.
interrompo os objetos de família, atiro-lhes
a porta
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara,
mais claramente me lembro:
uma porta, um armário,
aquela casa.
Um espelho verde de face
oval
é que parece uma lata
de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins,
nos tecidos sangúíneos.
É a casa do mundo:
desaparece em seguida:
PÁTRIA
Sofia de Mello Breyner Andresen
Por
um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro
Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável
E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas
- Pedra rio
vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro
Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo
ALGUMAS
PROPOSIÇÕES COM PÁSSAROS E ÁRVORES QUE O POETA
REMATA COM UMA REFERÊNCIA AO
CORAÇÃO
Ruy Belo
Os pássaros
nascem na ponta das árvores
As árvores que eu
vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o
fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam
onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as
árvores
Ao chegar aos pássaros as
árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal
para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as
folhas na terra
quando o outono desce
veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os
pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de
dizer ao romancista
é complicada e não se dá
bem na poesia
não foi ainda isolada da
filosofia
Eu amo as árvores
principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura
nos ramos?
De quem é a mão a inúmera
mão?
Eu passo e muda-se-me
o coração
ANIMAIS DOENTES
Alexandre O'Neill
Animais doentes as palavras
Também elas
Vespas formigas cabras
De trote difícil e miúdo
Gafanhotos alerta
Pombas vomitadas pelo azul
Bichos de conta bichos que
fazem de conta
Pequeníssimas pulgas uma
sílaba só
Lagartos melancólicos
Estúpidas galinhas
corriqueiras
Tudo tão doente tão
difícil
De manejar de lançar de
provocar
De reunir
De fazer viver
Ou então as orgulhosas
Palavras raras
Plumas de cores
incandescentes
Altos gritos no aviário
E o branco sem uso
Imaculado
De certas aves da solidão
Para dizer
Queria palavras tão reais
como chamas
E tão precárias
Palavras que vivessem só o tempo de dizer a sua
parte
No discurso de fogo
Logo extintas na combustão das próximas
Palavras que não esperassem
Em sal ou em diamante
O minuto ridículo precioso
raro
De sangrar a luz a gota de
veneno
Cativa das entranhas
ociosas.
EU
FALO DAS CASAS E DOS HOMENS
Adolfo Casais Monteiro
Eu
falo das casas e dos homens,
dos
vivos e dos mortos:
do
que passa e não volta nunca mais...
Não
me venham dizer que estava materialmente
previsto,
ah,
não me venham com teorias!
Eu
vejo a desolação e a fome,
as
angústias sem nome,
os
pavores marcados para sempre nas faces trágicas
das
vítimas.
E
sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma
insignificante parcela da tragédia.
Eu,
se visse, não acreditava.
Se
visse, dava em louco ou profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
-
mas não acreditava!
Olho
os homens, as casas e os bichos.
Olho
num pasmo sem limites,
e
fico sem palavras,
na
dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta
pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta
lama de sangue e alma,
de
coisa a ser,
e
pergunto numa angústia se ainda haverá alguma
esperança,
se
o ódio sequer servirá para alguma coisa...
Deixai-me
chorar - e chorai!
As
lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de
termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito
instituição
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por
momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por
um segundo seremos os mortos e os torturados,
os
aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos
a terra podre de tanto cadáver,
seremos
o sangue das árvores,
o
ventre doloroso das casas saqueadas,
-
sim, por um momento seremos a dor de tudo isto...
Eu
não sei porque me caem as lágrimas,
porque
tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu
que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu
que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu
que estou na minha casa sossegada,
eu
que não tenho guerra à porta,
-
eu porque tremo e soluço?
Quem
chora em mim, dizei - quem chora em nós?
Tudo
aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as
ruas são ruas com gente e automóveis,
não
há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e
a miséria é a mesma miséria que já havia...
E
se tudo é igual aos dias antigos,
apesar
da Europa à nossa volta, exangue e mártir,
eu
pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem
irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem
nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à
volta,
uma
noite em que nunca chega o alvor da madrugada...
ESTE
MAR
José Bento
Este mar me detém, mas
nunca saberei
quem desvaneceu a escrita
aqui abandonada num desígnio antiquíssimo:
as pegadas tenras das
gaivotas, folhas tranqüilas
a denunciar os ramos
adejantes que copiam a espuma
Escrevo gaivotas ,
simplifico: acaso estes signos
sejam também de alcatrazes,
alciões:
mas ao soletrar o seu ditado
errante
decifro mensagens num livro
tão precário que a brisa o arrebata.
Isso não importaria: eu
iria olhando no chão o negativo de meus pés,
nada teria para o comparar,
prosseguiria.
Até onde?
Prosseguiria sempre:
jamais findam as praias, nem
quando a luz se rende.
Assim, terei de retornar ao
poema: nomear o desconhecido,
reconstituir no mineral ou
na face que o tempo feriu para delir depois
a pressão de umas
pulsações, de uma cabeça vencida pelo cansaço [ou o desejo.
E recomeçar é sangrento se
o ímpeto se finca apenas em palavras,
em matéria que não se
possui.
As palavras nunca podem
guardar-se;
quando poupadas,
decompõem-se na sua própria usura.
Há que procurar o texto
alado: rente às algas exaustas,
sob a turquesa estilhaçada
que neva e tumultua,
iremos desvendá-lo.
Sem um indício?
Uma cor, um odor
vão conduzir-nos: os que no
azebre de um rosto em nós sepulto
distanciam as feições do
interior de onde despontam,
como o verbo se corrompe
desde que as sílabas se juntam e ameaçam:
os sinais que gravamos
propõem uma totalidade
até que uns olhos neles se
jogam e os afastam
do sangue de onde nascem.
Esse é o exemplo das asas:
lassas, arqueiam-se
suplicando o sol,
rasam a areia, prolongam a
nervura das pegadas,
enfunam-se num arrepio
inverniço - prenúncio de rajadas e marés -
e disparam para incendiar-se
onde a sombra as não humilhe.
Recomeço, pois. Como
recuperar o início?
os cirros como lanhos
veementes a exaurir as tardes?
os areais rebeldes aos
barcos, a expulsar o seu domínio?
Onde os dias a transbordar
de conchas cálidas?
Estou aqui e é evidente que
a ausência de sinais
sobre este chão, estas
mãos, esta fronte que não sustenho
porque estão em outro lugar
numa hora longínqua
é a única legenda que me
pode ser dada.
Só resta transcrevê-la e
extingui-la sem a ter compreendido.
Pousam estas letras como
aves: desconhecem a morte,
para elas todo o espaço é
este azul e o tempo o momento
em que seu vulto avança e
é peso a impor um sentido
que será denunciado apenas
a quem a seguir até à própria consumação:
a
salsugem, o vento ávido de cumprir-se na sua fuga ao
silêncio,
as vagas ou o esquecimento
indiferentes ao destruir o que ignoram,
mesmo se a espuma é no
meio-dia um peito em floração
e na noite a alva naufragada
prestes a cobrir o corpo desejado.

O
AMOR EM VISITA
Herberto
Elder
Dai-me uma jovem mulher
com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com
ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de
erva, uma mulher
Seus ombros beijarei, a
pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas
com a gravidade
de dois seios, com o peso
lúbrico e triste
da boca. Seus ombros
beijarei.
Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e
morrer.
Quando fora se abrir o
instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por
um grito marítimo
e o pão for invadido pelas
ondas -
seu corpo arderá mansamente
sob os meus olhos palpitantes.
Ele - imagem inacessível e
casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por
flores com água.
Em cada mulher existe uma
morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina,
sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos,
navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez
dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na
urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre
escarlate onde o sal põe espírito,
mulher de pés no branco,
transportadora
da morte e da alegria.
Dai-me uma mulher tão nova
como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu
flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha
carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso
ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para
depois cantar a morte
e a alegria da morte.
Dai-me um torso dobrado pela
música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a
florir o espírito.
ã tona da sua face se
moverão as águas,
dentro da sua face estará a
pedra da noite.
- Então cantarei a
exaltante alegria da morte.
Nem sempre me incendeia o
ardor das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita
viva.
- Porém, tu sempre me
incendeias.
Esqueço o arbusto
impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e
ascendido.
- Porém, não te esquecem
meus corações de sal e de brandura.
Estontece meu hálito com a
sombra,
tua boca penetra a minha voz
como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua
distãncia amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa
ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para
ti a música, a loucura e o mar.
Toco o peso da tua vida: a
carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os
pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza
partida,
os ombros violados,
o sangue penetrado de
paredes nuas.
Digo: eu sou a beleza, seu
rosto e seu durar. Teus olhos
se transfiguram, tuas mãos
descobrem
a sombra da minha face.
Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo:
ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as
coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja.
Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu
própria me duras em tua velada beleza
Então sento-me à tua mesa.
Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade
onde não dormissem
tua sombra e loucura,
em que não estivesses
pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a
ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa,
descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em
ti
principiam o mar e o mundo.
Minha memória perde em sua
espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas
cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso
demorei
meu frágil instante.
Porém,
teu silêncio de fogo e
leite repõe a força
maternal, e tudo circula
entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem
de ti
como as luas nascem dos
campos fecundos,
os instantes começam da tua
oferenda
como as guitarras tiram seu
início da música noturna.
Mais inocente que as
árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu
espírito cego e abstrato,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a
imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em
luz sobre
as casas, a cidade
arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos
dementes,
arde a madeira - para que
tudo cante
por teu poder angélico e
fechado.
Com minha face cheia de teu
espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo
pudor
e a água inicial de outros
sentidos.
Começa o tempo onde a
mulher começa,
é sua carne que do minuto
obscuro e morto
se devolve à luz
Na morte referve o vinho, e
a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face
espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio,
concebo para minha serenidade
uma idéia de pedra e de
brancura.
És tu que me aceitas em teu
sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos
puros.
E une-se ao vento o
espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.
Começa o tempo onde a boca
se desfaz na lua,
onde a beleza que
transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto
ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da
noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos
fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida
com a tua.
Oh teoria de instintos, dom
de inocência,
taça para beber junto à
perturbada intimidade
em que me acolhes.
Começa o tempo na
insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo
onde
a vária dor envolve o barro
e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao
trevo. E em sua medida
ingênua e cara, o que
pressente o coração
engasta seu contorno de lume
ao longe.
Bom será o tempo, bom será
o espírito,
boa será nossa carne presa
e morosa.
- Começa o tempo onde se
une a vida
à nossa gratidão.
Felizmente estás na pedra e
a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em
sua pungência e castidade.
E o que se perde de ti, como
espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte
que não beijo,
a erva incendiada que se
derrama na íntima noite,
- o que se perde de ti,
minha voz o renova
num estilo de angústia e
prata viva.
Quando o fruto empolga um
instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto
como sol
e desfeita pedra, e tu és o
silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para
nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a
resina tinge
a estrela, o aroma distancia
o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor
na idéia
e o livro no espaço triste.
Se te aprendessem minhas
mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam
cheias
minhas mãos sem nada. Se
uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa
ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te
moverás na matéria
da minha boca, e serás uma
árvore
dormindo e acordando onde
existe o meu sangue.
Beijar teus olhos será
morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma
entrega
tua carne de de vinho
roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos
meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face
para que a tua
se encha de um minuto
sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do
mundo
até que sejas o incêndio
da minha voz.
As águas que um dia
nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram
longamente
a nossa vida. As sombras que
rodeiam
o êxtase, os bichos que
levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto
divino
impresso no lodo, a casa
morta, a montanha
inspirada, o mar, os
centauros
do crepúsculo,
- aspiram longamente a nossa
vida.
Por isso é que estamos
morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do
verão, no pensamento
da brisa, no sorriso
deserto, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto,
- no amor mais impossível
do que a vida.
Beijo o degrau e o espaço.
O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o
teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Corre
em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas
mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente
pensamento.
Onde estará o mar? Aves
bêbadas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei
contigo.
E eu peço ao vento: traz do
espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma
palavra;
traz da montanha um pássaro
de resina, uma lua
vermelha.
Ó amados cavalos com flor
de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças,
superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó
meu amor,
em cada espasmo eu morrerei
contigo.
De meu recente coração a
vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha alma. Meu
desejo devora
a flor do vinho, envolve
tuas ancas como uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho,
mulher que a fome
encanta pela noite
equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei
contigo.
E à alegria diurna descerro
as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o
cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos
inclinam-se
para dentro do sono,
levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu
caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida
enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.
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