Fernando Pessoa em destaque
                                                   Adir ben Kauss  
                                                                                                      (comentário e seleção de poemas)                                                                                                                   

 

 

  
Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado . Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e outro outra, ou um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro. Mas cada um via uma coisa diferente, e cada um portanto, tinha razão. 
  Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.

                                                   Fernando Pessoa (notas soltas) 

 

          Fernando Pessoa morreu quase  completamente ignorado pelo grande público, pouco compreendido à época pelo leitor comum por ter renunciado a proposta naturalista-amorosa que orientava a poética de então. 
        Não se pode falar da obra de Fernando Pessoa sem abordar o seu caso com heteronímia – diz-se da produção literária publicada sob o nome de outra pessoa que não o autor, ou outro nome imaginário que um autor empresta às suas obras atribuindo a esse autor por ele criado qualidade, tendências literárias e biografia própria diferentes das do criador. Quer dizer a construção de várias identidades literárias coexistindo na obra de um mesmo autor. Daí a singularidade de sua obra. 
          Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro Campos e outros, muitos outros, heterônimos de Fernando Pessoa gravitavam em torno de uma mesma  poética. Os poemas a seguir, a meu juízo, exemplificam o gênio de Fernando Pessoa no manejo da língua portuguesa e no  domínio do fazer literário.