POEMA
PARA A NOITE
Maria
Teresa Horta
Beijo
o à vontade das mãos
na imagem dos homens
O oceano
por entre o oceano
a paz estagnada
no contôrno dos
espelhos
Beijo-te
na terra à secreção
dos passos
ódios redondos
acuado de seios
a noite na
espessura
quente
das almofadas sem manhã
a
imortalidade
abortada
que mulheres conduzem
prêsas
pelo ventre e saciadas
de filhos
Beijo
o absoluto contido
nos objetos sem casta
a incerteza branca
das paredes
imóveis
a insalubridade arqueada
no silêncio espêsso
das portas sem casas
com jardins malogrados
no início do nada
como se depois das
vertentes
árvores fôssem
chuva
ou nuvens fôssem
árvores
Beijo-vos
a todos por de dentro
dos lábios
as línguas da areia
nas bôcas das praias
golfos quadrados
de alvorarem
barcos
barcos erectos
agressivos de mastros
A cidade é nossa
Beijo-te
na cidade
nas ruas onde carros
são flores
que crescem em ruídos
de palmas
Beijo-te
na sêde aguda
que gaivotas têm de
céu
e de estátuas
estátuas anemia
de cabelos
em patamares de doença
missivas acres
de grades aciduladas
a água é no princípio
das palavras
veia fechada
saliente nas rochas
água vertebrada
com pulmões escondidos
Beijo-te
na água de caules
sucessivos
O grito é um navio
perdido
na memória
Beijo-te
no vidro
searas verdadeiras
de cristal p'lo
ódio
a batalha é o azul
que deixamos atrás
Beijo
a súbita vontade
da vigília dos partos
os suicídios moles
com precipícios vastos
as pedras castradas
nas retinas dos
gatos
horizonte
na distância onde o
crime
acontece nas lâminas
Fatos inconcretos
na geometria
do mêdo
as viúvas são laranjas
vestidas
de encarnado
Beijo-te
esquecida na vertigem
das algas
o vento é oblíquo
nas âncoras antecipadas
as lágrimas
são incógnitas
na orgânica dos sons
Introdução às
pétalas
na urgência da glória
abelhas saqueadas
na saliva ruiva
em poentes sem vértice
a boiarem na pele
rugosamente
opaca
da lua
A nossa vontade
é nos ombros das
plantas
orvalho de febre sem
objetivo
Beijo-vos
no bosque onde o animal
é a penumbra
e os joelhos da luz
cogumelos de asfalto
no centro de um inverno
sem notícia nem espanto
Beijo-vos
prolongada de gerações
em silêncio
é para nós agora
a vez
das planícies que
erguemos
pelas ancas
na curva onde o hálito
é ansiedade no homem
são para nós
as notícias de mortes
necessárias
na simetria do espaço
Beijo-vos
nos pulsos de naufrágio
circulares
a onda é um motivo
assimétrico de revolta
Fronteiras mutiladas
cedo
rente aos cais
Beijo-vos
na vontade de
recomeçarmos
os olhos
os cavalos
são paisagens
e o neon é um cavalo
de mergulharmos os dedos
Beijo-vos
a todos nos meus lábios
onde antiguidade de
manhã
é gaiola insubmersa
de nunca existirem
passos
ROTEIRO
João
Rui de Sousa
Meu jeito visionário -
meu astrolábio.
Meu ser mirabolante - um
alcatruz.
De variadas coisas fiz a
minha esperança
e sempre em várias
coisas vi a minha cruz.
Aos padrões que em
vários pontos encontrei
na rota íntima de
vestes tropicais
eu dei as mãos, serenas
e intactas,
as minhas dores mais
certas e reais.
Nos vários sítios que
- abismos -
toldaram minha voz por
um olhar,
eu evitei o perigo e os
prejuízos
à voz feita de calma,
meu cantar.
Aos rasgos que, de
outrora, evocados
foram sempre pelo seu
valor,
eu dei a minha tez de
dúvida e de espanto,
o meu silêncio amargo,
o meu calor.
E aos pontos cardeais
que em volta, vacilantes,
desalentavam já meu ser
cativo,
parei o gesto, roubei o
pólo sul da esperança
como lembrança para um
dia altivo.
HINO AO TEJO
Alberto
de Lacerda
Ó Tejo das asas largas
Pássaro lindo que se ouve
em tôdas as ruas de Lisboa
Ó coroa duma cidade
maravilhosa
Ó manto célebre nas
côrtes do mundo inteiro
Faixa antiga duma cidade
mourisca
Fênix astro caravela
líquida
Silêncio marulhante das
coisas que vão acontecer
Deslizar sem desastres sem
fado sem presságio
Tu ó majestoso ó Rei ó
simplicidade das coisas belíssimas
Nas tardes em que o sol te
queima passo junto de ti
E chamo-te numa voz sem
palavras marejada de lágrimas
Meu irmão mais velho
EEN LIED VOOR
MARGARETHA
David
Mourão Ferreira
Tu vens de terras de
Holanda,
mas tens a carne
morena,
E em vez da serena,
branda
postura que o Norte
manda,
teu corpo se desordena
à carícia, por mais
branda...
Tu vens das terras de
Holanda...
Eu venho de Portugal:
o mesmo é dizer que
venho
de longe, do litoral,
e um sabor, no corpo, a
sal
definiu meu Fado
estranho.
Aqui me tens, donde
venho:
eu venho de Portugal...
Trago nos lábios o Mar,
cheio de vento e de
espuma...
E tu mo virás roubar!
- Ai descampados ao ar,
onde houvera ventos,
bruma! -
Com saudade hei de
lembrar:
tinha nos lábios o
Mar...
Hei de lembrar e sofrer
o que fôr perdendo
aqui...
Mas um colo de mulher
tudo merece, e requer
o abandono de si...
Quem me dera que por ti
venha a lembrar e
sofrer...
Tu vens de terras de
Holanda,
eu venho de Portugal:
cada um de sua banda...
Sabe o Destino o que
manda,
quer p'ra bem ou quer
p'ra mal...
- Não mais as terras de
Holanda
e areias de Portugal!
TESTAMENTO,
ENTRE OS PINHEIROS E O MAR
José
Fernandes Fafe
Se eu morrer primeiro
do que tu,
salva a ternura que
salvei.
Depois, se te doer,
firma o olhar
nas ondas mais
longínquas do mar largo,
destrói a dor nas
lágrimas, e o vento
que te esvoace a saia e
o cabelo,
pinheiro firme, cego dos
sentidos,
entre as flores
silvestres e a espuma...
E o indício de tudo ter
passado
(eu, um tempo feliz que
se recorda)
é sentires o longo,
íntimo afago
do marulho do mar, mão
pelos cabelos...
S.
ROMÃO
Mendes
de Carvalho
S. Romão é a terra e o mar
o vento o luar a noite total
e o sol.
Em S. Romão cada um é rei
de si mesmo
e lá os reis a valer não
têm qualquer realidade.
Em S. Romão podemos ficar
ao sol
podemos perder-nos dentro da
noite
podemos não fazer
coisíssima nenhuma
podemos erguer um hino à
preguiça
podemos ficar budamente de
mãos na barriga
podemos ter poesia que não
venha nos livros
podemos ter um cão nosso
conhecido
sem nunca nos ter sido
apresentado
um cão sem coleira que
ladra à lua
livremente cão esquecido do
fisco.
O nome deste lugar anfíbio
é fictício
para que não o descubram os
turistas
que andam sempre com o nariz
no ar
e não seja enviado em
cartaz para o estrangeiro
e nem sequer o descubra o
Manuel Bandeira
que é amigo do rei de
Pasárgada
e este não sabe andar sem
comitiva
para que nenhum americano
vá construir uma pousada
para week-end vinícola.
Em S. Romão não há
pintores paisagistas
nem hoteleiros
nem urbanistas.
Em S. Romão ninguém pensa
salvar o mundo
o que só acontece às
pessoas perdidas de todo
e aos escritores
neorealìsticamente locais
que conhecem tôdas as
misérias por fora.
S. Romão não é pôrto de
abrigo
Desde já aviso à
navegação.
Não há faroleiro os
rochedos são perigosos
o mar sem distAncia é
aventura
promessa de peixe
certeza de fome.
CANÇÃO
Eugênio
de Andrade
Tu eras neve.
Branca neve acariciada.
Lágrima e jasmim
no limiar da nadrugada.
Tu eras água.
Água do mar se te
beijava
Alta tôrre, alma,
navio,
adeus que não começa
nem acaba.
Eras o fruto
nos meus dedos a tremer.
Podíamos cantar
ou voar, podíamos
morrer.
Mas do nome
que maio
decorou,
nem a côr
nem o gôsto me ficou.
ORAÇÃO DE
TÔDAS AS HORAS
Sebastião
Gama
Agora,
que eu já não sei
andar nas trevas,
não me roubes a Tua
Mão, Senhor,
por piedade!
Voltar às trevas não
sei,
e sem a Tua Mão não
poderei
dar um só passo em
tanta Claridade.
P'las Tuas feridas
minhas, p'las tristezas
de Tua Mãe, Jesus.
não me deixes, no meio
desta Luz,
de pernas prêsas...
Não me deixes ficar
com o Caminho todo
iluminado
e eu parado e tão
cansado
como se fôsse a
andar...
LINHA DE RUMO
Ruy
Cinatti
Quem não me deu
Amor, não me deu nada.
Encontro-me parado...
Olho em meu redor e vejo
inacabado
O meu mundo melhor.
Tanto tempo perdido...
Com que saudade o lembro
e o bendigo:
Campo de flôres
E silvas...
Fonte da vida fui.
Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver
E sigo deslumbrado o
pensamento
Que se descobre.
Quem não me deu Amor,
não me deu nada.
Desterrado,
Desterrado prossigo,
E sonho-me sem Pátria e
sem Amigos,
Adrede...
EXERCÍCIO
ESPIRITUAL
Mário Cesariny de Vasconcelos
É preciso
dizer rosa em vez de dizer idéia
é preciso dizer azul em vez
de dizer pantera
é preciso dizer febre em
vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em
vez de dizer um homem
É preciso dizer candelabro
em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para Sempre
em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em
vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em
vez de dizer aurora
POEMA
DUM FUNCIONÁRIO CANSADO
Antônio Ramos Rosa
À noite trocou-me os
sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido
e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num
quarto só
com os sonhos trocados
com tôda a vida às avessas
a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha
a minha mão
Débito e Crédito Débito e
Crédito
a minha alma não dança com
os números
tento escondê-la
envergonhado
o chefe apanhou-me com o
ôlho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta
de empregado
Sou um funcionário cansado
dum dia exemplar
Por que não me sinto
orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto
irremediavelmente perdido no meu cansaço?
Soletro velhas palavras
generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrêla música
São as palavras cruzadas do
meu sonho
palavras soterradas na
prisão da minha vida
isto tôdas as noites do
mundo numa só noite comprida
num quarto só.
CAMINHADA
Amândio
Cesar
Irmãos!
Não estive nas cãmaras
de gás,
Nem vi o arame dos
campos de concentração.
Fui talvez o último que
cheguei,
Mas cheguei
Não vim para
banquetes,
Pois nesta hora
desfraldada
Só há choros e lutos,
E esperanças, ainda
esperanças,
Numa futura caminhada.
Irmãos!
Nós somos talvez dum
mundo nôvo
E teremos de construir o
mundo nôvo.
Eu sou talvez o último
que cheguei
Para os dias do futuro.
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