Poetas portugueses modernos 

 

In: POETAS PORTUGUESES MODERNOS - João Alves das Neves (org.);
 Editora Civilização Brasileira,1967.


                            Seleção :
Luís Sérgio dos Santos.

 


 

POEMA PARA A NOITE

            Maria Teresa Horta

Beijo 
o à vontade das mãos 
na imagem dos homens 
  
O oceano 
por entre o oceano 
  
a paz estagnada 
no contôrno dos espelhos 
  
Beijo-te 
na terra à secreção 
dos passos 
  
ódios redondos 
acuado de seios 
  
a noite na espessura   
quente 
das almofadas sem manhã 
  
a imortalidade   
abortada 
que mulheres conduzem 
prêsas 
pelo ventre e saciadas 
de filhos 
  
Beijo 
o absoluto contido 
nos objetos sem casta 
  
a incerteza branca 
das paredes 
imóveis 
  
a insalubridade arqueada 
no silêncio espêsso 
das portas sem casas 
com jardins malogrados 
no início do nada 
como se depois das vertentes 
árvores fôssem 
chuva 
ou nuvens fôssem árvores 
  
Beijo-vos 
a todos por de dentro 
dos lábios 
  
as línguas da areia 
nas bôcas das praias 
  
golfos quadrados 
de alvorarem 
barcos 
  
barcos erectos 
agressivos de mastros 
  
A cidade é nossa 
  
Beijo-te 
na cidade 
nas ruas onde carros 
são flores 
que crescem em ruídos 
de palmas 
  
Beijo-te 
na sêde aguda 
que gaivotas têm de céu 
e de estátuas 
  
estátuas anemia 
de cabelos  
em patamares de doença 
  
missivas acres 
de grades aciduladas 
  
a água é no princípio 
das palavras 
  
veia fechada 
saliente nas rochas 
  
água vertebrada 
com pulmões escondidos 
  
Beijo-te 
na água de caules 
sucessivos 
  
O grito é um navio 
perdido 
na memória 
  
Beijo-te 
no vidro 
  
searas verdadeiras 
de cristal p'lo 
ódio 
  
a batalha é o azul 
que deixamos atrás 
  
Beijo 
a súbita vontade 
da vigília dos partos 
os suicídios moles 
com precipícios vastos 
  
as pedras castradas 
nas retinas dos  
gatos 
  
horizonte 
na distância onde o crime 
acontece nas lâminas 
  
Fatos inconcretos 
na geometria 
do mêdo 
  
as viúvas são laranjas 
vestidas 
de encarnado 
  
Beijo-te 
esquecida na vertigem 
das algas 
  
o vento é oblíquo 
nas âncoras antecipadas 
  
as lágrimas 
são incógnitas 
na orgânica dos sons 
  
Introdução às pétalas 
na urgência da glória 
  
abelhas saqueadas 
na saliva ruiva 
em poentes sem vértice 
a boiarem na pele rugosamente 
opaca 
da lua 
  
A nossa vontade 
é nos ombros das plantas 
orvalho de febre sem objetivo 
  
Beijo-vos 
no bosque onde o animal 
  
é a penumbra 
e os joelhos da luz 
  
cogumelos de asfalto 
no centro de um inverno 
sem notícia nem espanto 
  
Beijo-vos  
prolongada de gerações 
em silêncio 
  
é para nós agora 
a vez 
das planícies que erguemos 
pelas ancas 
na curva onde o hálito 
é ansiedade no homem 
  
são para nós 
as notícias de mortes 
  
necessárias 
na simetria do espaço 
  
Beijo-vos 
nos pulsos de naufrágio 
circulares 
  
a onda é um motivo 
assimétrico de revolta 
  
Fronteiras mutiladas 
cedo 
rente aos cais 
  
Beijo-vos 
na vontade de recomeçarmos 
os olhos 
  
os cavalos 
são paisagens 
e o neon é um cavalo 
de mergulharmos os dedos 
  
Beijo-vos 
a todos nos meus lábios 
onde antiguidade de manhã 
é gaiola insubmersa 
de nunca existirem passos 

 


  
   
  
  

               ROTEIRO

João Rui de Sousa

  
  
Meu jeito visionário - meu astrolábio. 
Meu ser mirabolante - um alcatruz. 
De variadas coisas fiz a minha esperança 
e sempre em várias coisas vi a minha cruz. 
  
Aos padrões que em vários pontos encontrei 
na rota íntima de vestes tropicais 
eu dei as mãos, serenas e intactas, 
as minhas dores mais certas e reais. 
  
Nos vários sítios que - abismos - 
toldaram minha voz por um olhar, 
eu evitei o perigo e os prejuízos 
à voz feita de calma, meu cantar. 
  
Aos rasgos que, de outrora, evocados 
foram sempre pelo seu valor, 
eu dei a minha tez de dúvida e de espanto, 
o meu silêncio amargo, o meu calor. 
  
E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes, 
desalentavam já meu ser cativo, 
parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança 
como lembrança para um dia altivo. 


  
  


  
 

  HINO AO TEJO 

Alberto de Lacerda


     
Ó Tejo das asas largas 
Pássaro lindo que se ouve em tôdas as ruas de Lisboa 
Ó coroa duma cidade maravilhosa 
Ó manto célebre nas côrtes do mundo inteiro 
Faixa antiga duma cidade mourisca 
Fênix astro caravela líquida 
Silêncio marulhante das coisas que vão acontecer 
Deslizar sem desastres sem fado sem presságio 
Tu ó majestoso ó Rei ó simplicidade das coisas belíssimas 
Nas tardes em que o sol te queima passo junto de ti 
E chamo-te numa voz sem palavras marejada de lágrimas 
Meu irmão mais velho 

 


  
  


 
 

EEN LIED VOOR MARGARETHA

                   David Mourão Ferreira
  

     
Tu vens de terras de Holanda, 
mas tens a carne morena,  
E em vez da serena, branda 
postura que o Norte manda, 
teu corpo se desordena 
à carícia, por mais branda... 
Tu vens das terras de Holanda... 
  
Eu venho de Portugal: 
o mesmo é dizer que venho 
de longe, do litoral, 
e um sabor, no corpo, a sal 
definiu meu Fado estranho. 
Aqui me tens, donde venho: 
eu venho de Portugal... 
  
Trago nos lábios o Mar, 
cheio de vento e de espuma... 
E tu mo virás roubar! 
- Ai descampados ao ar, 
onde houvera ventos, bruma! - 
Com saudade hei de lembrar: 
tinha nos lábios o Mar... 
  
Hei de lembrar e sofrer 
o que fôr perdendo aqui... 
Mas um colo de mulher 
tudo merece, e requer 
o abandono de si... 
Quem me dera que por ti 
venha a lembrar e sofrer... 
  
Tu vens de terras de Holanda, 
eu venho de Portugal: 
cada um de sua banda... 
Sabe o Destino o que manda, 
quer p'ra bem ou quer p'ra mal... 
- Não mais as terras de Holanda 
e areias de Portugal! 

 


  
  


 
 

TESTAMENTO, ENTRE OS PINHEIROS E O MAR 

                                José Fernandes Fafe 

Se eu morrer primeiro do que tu, 
salva a ternura que salvei. 
  
Depois, se te doer, firma o olhar 
nas ondas mais longínquas do mar largo,  
destrói a dor nas lágrimas, e o vento 
que te esvoace a saia e o cabelo,   
pinheiro firme, cego dos sentidos, 
entre as flores silvestres e a espuma... 
  
E o indício de tudo ter passado 
(eu, um tempo feliz que se recorda) 
é sentires o longo, íntimo afago 
do marulho do mar, mão pelos cabelos... 

 


  
  


  
 
S. ROMÃO 

Mendes de Carvalho

 
  
S. Romão é a terra e o mar 
o vento o luar a noite total e o sol. 
Em S. Romão cada um é rei de si mesmo 
e lá os reis a valer não têm qualquer realidade. 
Em S. Romão podemos ficar ao sol 
podemos perder-nos dentro da noite 
podemos não fazer coisíssima nenhuma 
podemos erguer um hino à preguiça 
podemos ficar budamente de mãos na barriga 
podemos ter poesia que não venha nos livros 
podemos ter um cão nosso conhecido 
sem nunca nos ter sido apresentado 
um cão sem coleira que ladra à lua 
livremente cão esquecido do fisco. 
  
O nome deste lugar anfíbio é fictício 
para que não o descubram os turistas 
que andam sempre com o nariz no ar 
e não seja enviado em cartaz para o estrangeiro 
e nem sequer o descubra o Manuel Bandeira 
que é amigo do rei de Pasárgada 
e este não sabe andar sem comitiva 
para que nenhum americano vá construir uma pousada 
para week-end vinícola. 
  
Em S. Romão não há pintores paisagistas 
nem hoteleiros 
nem urbanistas. 
  
Em S. Romão ninguém pensa salvar o mundo 
o que só acontece às pessoas perdidas de todo 
e aos escritores neorealìsticamente locais 
que conhecem tôdas as misérias por fora. 
  
S. Romão não é pôrto de abrigo 
Desde já aviso à navegação. 
Não há faroleiro os rochedos são perigosos 
o mar sem distAncia é aventura 
promessa de peixe 
certeza de fome. 
  




 

 

CANÇÃO 

Eugênio de Andrade 

     
Tu eras neve. 
Branca neve acariciada. 
Lágrima e jasmim 
no limiar da nadrugada. 
  
Tu eras água. 
Água do mar se te beijava 
Alta tôrre, alma, navio, 
adeus que não começa nem acaba. 
  
Eras o fruto 
nos meus dedos a tremer. 
Podíamos cantar 
ou voar, podíamos morrer. 
  
Mas do nome 
que maio decorou,   
nem a côr 
nem o gôsto me ficou. 

 


  
 

 
  

ORAÇÃO DE TÔDAS AS HORAS

                 Sebastião Gama

 Agora, 
que eu já não sei andar nas trevas, 
não me roubes a Tua Mão, Senhor, 
por piedade! 
Voltar às trevas não sei, 
e sem a Tua Mão não poderei 
dar um só passo em tanta Claridade. 
  
P'las Tuas feridas minhas, p'las tristezas 
de Tua Mãe, Jesus. 
não me deixes, no meio desta Luz, 
de pernas prêsas... 
  
Não me deixes ficar 
com o Caminho todo iluminado 
e eu parado e tão cansado 
como se fôsse a andar... 
  

 


  
 

  
            LINHA DE RUMO 

Ruy Cinatti

Quem não me deu Amor, não me deu nada. 
Encontro-me parado... 
Olho em meu redor e vejo inacabado 
O meu mundo melhor. 
  
Tanto tempo perdido... 
Com que saudade o lembro e o bendigo: 
Campo de flôres 
E silvas... 
  
Fonte da vida fui. Medito. Ordeno. 
Penso o futuro a haver 
E sigo deslumbrado o pensamento 
Que se descobre. 
  
Quem não me deu Amor, não me deu nada. 
Desterrado, 
Desterrado prossigo, 
E sonho-me sem Pátria e sem Amigos, 
Adrede...

 


  
  
 

EXERCÍCIO ESPIRITUAL

                      Mário Cesariny de Vasconcelos

É preciso dizer rosa em vez de dizer idéia 
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera 
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência 
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem 
  
É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano 
é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora 
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano 
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora 

 


  
  

  
 

POEMA DUM FUNCIONÁRIO CANSADO 

                                Antônio Ramos Rosa

 

À noite trocou-me os sonhos e as mãos 
dispersou-me os amigos 
tenho o coração confundido e a rua é estreita 
estreita em cada passo 
as casas engolem-nos 
sumimo-nos 
estou num quarto só num quarto só 
com os sonhos trocados 
com tôda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
 
um funcionário triste 
a minha alma não acompanha a minha mão 
Débito e Crédito Débito e Crédito 
a minha alma não dança com os números 
tento escondê-la envergonhado 
o chefe apanhou-me com o ôlho lírico na gaiola do quintal em frente 
e debitou-me na minha conta de empregado 
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar 
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever? 
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço? 
Soletro velhas palavras generosas 
Flor rapariga amigo menino 
irmão beijo namorada 
mãe estrêla música 
São as palavras cruzadas do meu sonho 
palavras soterradas na prisão da minha vida 
isto tôdas as noites do mundo numa só noite comprida 
num quarto só. 


  
  

 

 

CAMINHADA 

Amândio Cesar

Irmãos! 
Não estive nas cãmaras de gás, 
Nem vi o arame dos campos de concentração. 
Fui talvez o último que cheguei,
Mas cheguei
 
  
Não vim para banquetes,   
Pois nesta hora desfraldada 
Só há choros e lutos, 
E esperanças, ainda esperanças, 
Numa futura caminhada. 
  
Irmãos! 
Nós somos talvez dum mundo nôvo 
E teremos de construir o mundo nôvo. 
Eu sou talvez o último que cheguei 
Para os dias do futuro.