Saudação a Gagarin e ao futuro*  
                                

                                                                Moacyr Félix  
  

Yuri, o soviético, soube, mais que qualquer homem,  
que a Terra é azul! E que o amor humano  
entre as estrelas tem a beleza de uma rua  
sem lutas de classe e sem medos e sem fome  
e na qual cada desejo nosso afagará no tempo  
o próprio corpo de uma eternidade nua.  

Myr, esta é a real morada da vida que senta e pensa  
no infinito a paz, essa coisa indefinida e imensa  
que se acopla ao rastro de Gagarin e nos convida  
a ver nos portais da nossa história a ponte extensa  
para o amor andar no chão da desmedida.  

Myr, nós te saudamos, olho no futuro  
que nos olhos de Yuri Gagarin se acendeu  
quando em cavalos de luz sobre o vazio escuro  
o sonho humano se apossou do céu !  
Myr, nós te saudamos, nós, homens da Terra  
que te sabemos canção e paz e não horror e guerra ! 


* No dia 12 de abril de 1986, a convite da Agência Novosti, Moacyr  Félix fez um poema  especial para a comemoração dos 25 anos de subida ao espaço de Yuri Gagarin, o primeiro cosmonauta do mundo.  Este poema foi lido pelo próprio autor, em ligação direta do Rio de Janeiro , para a espaçonave Myr, então, na órbita da Terra, e traduzido simultaneamente para toda a então União Soviética . O Brasil teve, assim, o primeiro poeta  a lançar sua mensagem de paz através do infinito espaço .  


A voz de Moacyr Félix foi gravado por Luís Sérgio dos Santos em 2001.

 


  


 
  
  
 

                 Pacificare*

                     Amélia Alves  

Quero, eu não quis,  
eu espero, eu fiz  
jeitos de ficar aqui.  
Se faço, aconteço,  
passo, padeço,  
nem mereço um vintém .  

Tem uma lua,  
caminho em mil nações.  
Vivo tempos de tentar,  
visto intentos, orações.  
Minha rua, ando a pé ,  
rio até, eu sei:   
eu só tenho fé .  

Pronto um gesto a mais  
planto um passo a mais  
de mudar, não sei, eu sei .  
Reza um vento aqui  
em minha intenção.  
Outro vento ali:  
Nasceu.  

Eu quero, eu sei.  
Pressinto a viração.  
Tanto tempo, tanto faz,  
sigo, enfrento e tudo mais,  
conto contas de coral,  
tento um tento e afinal :  
A paz .   

* Letra de canção-título do show  “Pacificare”, parceria com Hervé Machado, apresentado em temporada  no Teatro Casa Grande (Leblon-Rio de Janeiro) e no Teatro de Bolso de Campos em 1974.   

  
  
  
  

Revoada

                 Salgado Maranhão  
  

Os  pássaros quando voam  
Não deixam sequer rastro  ao vento  
Porque não voam com as asas  
Apenas como o sentimento.  
  

Os pássaros em revoada  
Não buscam tão simplesmente  
O ninho de algum lugar  
Porque já estão pousados  
No próprio ninho do ar.  
  

Quando  pássaros em pleno vôo  
Não há nem asas nem vento  
Tudo fica como o tempo  
Apenas paz e firmamento. 

 

 

 

PAZ

Roseana Murray


Na ponta dos pés
como bailarina pisando
em folhas e assombros,
costurar os dois lados da lua,
a terra no céu,
e no céu e na Terra
desenhar com o corpo inteiro
a palavra paz.

 

 

 

O Nome: Paz

                     Olga Savary
 

Uma certa pomba coroa nossa fronte
a nos falar de um tempo pau-brasil
dias e mais dias em que seu nome
é não o escrito mas o vivido
de ver a alegria do povo pelas ruas,
de clamar seus nomes nas esquinas,
de antes murcha vê-la crescer em força
em novo cotidiano nas calçadas.
A beleza é sua cúmplice e o risco
e a noite, qual um dia, na avenida,
descerrar ventos e descobrir dunas
onde só asfalto havia. Seu nome, Paz,
é poesia: didática de escrever
não sobre a beleza inútil mas sobre
a solidária verdade comum a todo ser.
Então nos perturbarás, ainda que festa,
peso da terra que és em nossa mão
e embora a tenhamos para sempre
no desejo e no imaginário
sabemos que dia virá ela virá
temor por ser porto e navio
a ir embora, chegada e partida,
um sempre-nunca, incansável caça,
a começar de novo mal se acaba
e no pau vermelho a inscrevemos:
liberdade

 


 
 

O último tango nas Malvinas 

                                         Affonso Romano de Sant’Anna  
 

Os homens amam a guerra. Por isso  
se armam festivos em coro e cores  
para o dúbio esporte da morte.  

Amam e não disfarçam.  
alardeiam esse amor nas praças,  
criam manuais e escolas,  
alçando bandeiras e recolhendo caixões,  
entoando slogans e sepultando canções.  

Os homens amam a guerra. Mas  não a  amam  
só com a coragem do atleta  
e a empáfia militar, mas com a piedosa   
voz do sacerdote, que antes do combate  
serve a hóstia da morte.  

Foi assim na Criméia e Tróia,  
                 na Eritréia e Angola,  
                 na Mongólia e Argélia,  
                 na Sibéria e agora.  

Os homens amam a guerra  
e mal suportam a paz.  

Os homens amam a guerra,  
portanto,  
não há perigo de paz.  

Os homens amam a guerra, profana  
ou santa, tanto faz.  
  
  

Os homens têm a guerra como amante,  
embora esposem a paz.  

E que arroubos, Meu Deus! Nesse encontro voraz 
que prazeres! que uivos! que ais!  
que sublimes perversões urdidas  
na mortalha de lençóis, lambuzando  
a cama ou campo de batalha.  

Durante séculos pensei  
que a guerra fosse o desvio  
e a paz a rota. Enganei-me. São paralelas,  
margens de um mesmo rio, a mão e a luva,  
o pé e a bota. Mais que gêmeas,  
são xifópagas, par e ímpar , sorte e azar.  
São o ouroboro _ cobra circular  
eternamente a nos devorar.  

A guerra não é um entreato.  
É parte do espetáculo. E não é tragédia apenas,  
é comédia, real ou popular,  
é algo melhor que circo:  
              _ é onde o alegre trapezista  
              vestido de kamikase  
              salta sem rede e suporte,  
              e o contorcionista se parte  
              no kamasutra da morte.  

A guerra não é o avesso da paz.  
Ë seu berço e seio complementar.  
E o horror não é o inverso do belo  
_ é seu par. Os homens Amam o belo,  
mas gostam do horror na arte. O horror  
não é escuro, é a contraparte da luz.  
  
 Lucífer e Lusbel, brilha como Gabriel  
e o terror seduz.  
                          Nada mais sedutor  
que Cristo morto na cruz.  

Portanto, a guerra não é só missa  
que oficia o padre, ciência  
que alucina o sábio, esporte  
que fascina o forte. A guerra é arte.  
E com o ardor dos vanguardistas  
freqüentamos a bienal do horror  
e inauguramos a Bauhaus da morte.  

Por isso, em cima da carniça não há urubu,  
chacais abutres,hienas.  
Há lindas garças de alumínio, serenas  
num  eletrônico balé.  

Talvez fosse a dança da morte, patética.  
Não é. É apenas outra lição de estética.  
Daí que os soldados modernos  
são como médico e engenheiro  
e nenhum ministro de guerra  
usa roupa de açougueiro.  

Guerra é guerra  
                         dizia o invasor violento  
                         violentando a freira no convento.  
Guerra é guerra  
                        dizia a estátua do almirante  
                        com a sua boca de cimento.  
Guerra é guerra  
                        dizemos no radar  
                        degustando o inimigo  
                         ao norte do paladar.  
  
 Não é preciso disfarçar  
o amor à guerra , com história de amor à Pátria  
e defesa do lar. Amamos a guerra  
e a paz, em bigamia exemplar .  
Eu, poeta moderno ou o eterno Baudelaire,  
eu e você, hypocrite lecteur 
mon semblabe, mon frère 
Queremos a batalha, aviões em chamas,  
navios afundando, o espetacular confronto .  

De manhã abrimos vísceras de peixes  
com a ponta das baionetas  
e ao som da culinária trombeta  
enfiamos adagas em nossos porcos  
e requintamos de medalha  
                        _ os mortos sobre a mesa.   

Se possível, a carne limpa, sem sangue.  
Que o míssel silente lançado a distância  
não respingue em nossa roupa.  
Mas se for preciso um banho de sangue  
_ como dizia Terêncio:  Sou humano  
e nada do que é humano me é estranho.  
   
A morte e a guerra  
                  não mais me pegam ao acaso.  
                  escrevo sua dupla efígie na pedra  
                  como se o dado de minha sorte  
                  já não rolasse ao azar.  
                  Como se passasse do branco  
                  ao preto e ao branco retornasse   
                  sem nunca me sombrear.  
Que venha a guerra. Cruel. Total.  
O atômico clarim e a gênese do fim.  
Cauto, como convém aos sábios,  
primeiro bradarei contra esse fato.  
   
Mas, voraz como convém à espécie,  
ao ver que invadem meus quintais,  
das folhas da bananeira inventarei  
a ideológica bandeira e explodirei  
o corpo do inimigo antes que ataque.  
E se ele não atirar nem viver, aproveito  
seu descuido de homem fraco, invado sua casa  
realizando minha fome milenar de canibal  
rugindo sob a máscara de homem.  

_ Terrível é o teu discurso,  poeta!  
escuto alguém falar.  
                           Terrível o foi elaborar.  
                           Agora me sinto livre.  
                           A morte e a guerra  
                           já não me podem alarmar.  
                           Como Édipo perplexo  
                           decifrei-as  em minhas vísceras  
                           antes que a dúbia esfinge  
                           pudesse me devorar.  

Nem cínico nem triste. Animal  
humano, vou em marcha, danças, preces  
para o grande carnaval.  
Soldado, penitente, poeta,  
_  a paz e a guerra, a vida e a morte  
me aguardem  
                      _  num atômico funeral.  

_  Acabará a espécie humana sobre a Terra?  
Não.  Hão de sobrar um novo Adão e Eva  
a refazer o amor, e dois irmãos:  
_  Caim e Abel  
                        a reinventar a guerra. 

  
  
  

                           Procurando a paz, procurando Deus.  

                                                                                      Luís Sérgio dos Santos  

                           Nas quilhas dos navios apontando o horizonte  
                           E que rasgam o mar sem ferir.  
                           Na minha pele dentro da tua pele.  
                           Nas chuvas que dão de beber às árvores,  
                           No ramo que acena na árvore o pouso aos pássaros.  

                           Nas fotos dos tetravós, nas  frestas das portas  
                           Que deixam a luz transgredir para outros espaços.  
                           Nas torres das catedrais, nas horas vazias de vários templos  
                           Dos diversos nomes que Deus utiliza para nos chamar.  

                           Pelas bocas que não fecham, pelas bocas que se fecham  
                           Mas não calam, pelo silêncio que estronda,  
                           Pelas  tuas franjas, pelo vento varrendo teus cabelos.  

                           Entre o cisco em teu olho, e a quase cegueira,  
                           Entre os sons dos sinos, entre os mortos sem razão  
                           Entre a paixão e um rosário que se rompe e espalha  
                           Contas como gotas ágeis que se perdem no chão.  

                           Após o tam, tam, tam de Ludwig Van Beethoven,  
                           Após Jesus Alegria dos Homens de J. Sebastian Bach,  
                           Após a Ave Maria de Franz Schubert.  

                           Dentro do mergulho do sol como imensa hóstia   
                           Vermelha-amarela-laranja no horizonte do mar  
                           No final de uma tarde de um dia de verão   
                           Numa praia da Barra da Tijuca no ano de 1981.  

                           Dentro dos teus olhos mergulhando, dentro  
                           E no avesso dos passos, nas caixas de memórias,  
                           Como sons guardados nos búzios, dentro do teu sono.                       

                           Sim, nos milhares de papéis que voam  pelo chão  
                           Após alguns comícios, nas mesmas  
                           Praças públicas em que dormem  
                           Crianças sem pai nem mãe e que  
                           Nem aprenderão um dia a lerem papel nenhum.  

                           Sim, nos papéis em que representamos papéis,  
                           E que não somos algo mais que um carbono  
                           A nos fazer iguais ao que somos.  

                           Sim, nos clones que desejamos ser.  
                           Sim, nos clones que não desejamos ser.  

                           Na alma que não sabemos clonar.  

                           Nos pátios das escolas em que a adolescência  
                           Ainda não foi informada da arma de fogo  
                           Que o destino pode lhes impor,  
                           Sendo uma matéria que lhes falta aviso.  

                           Nos avisos esquecidos.  
                           Nos avisos desnecessários.  

                           Nos porões dos subúrbios do mundo  
                           Em que a vida vale poucos trocados,  
                           Ou, às vezes, noves fora nada.  

                           Ao dizer algo sem agilidade,  
                           Indevido, quando se deveria dizer Paz.  
                           Sem porém nem quando  
                           Num absurdo inesperado  
                           Frente uma nuvem de gafanhotos místicos  
                           Nos desertos sem água e pão.  

                           Pronto para ser mágico  
                           A usar espadas que não cortam,  
                           Disposto a fazer cavalos de cavalarias  
                           Entrarem para o espetáculo do circo  
                           Rodando sempre num só local  
                           Até que extenuados não possam  
                           Ir a guerra. 

                           Treinando arapucas para prender palavras.  
                           Aprendendo jogos imperdíveis.  
                           Infiltrado no imaginário da tela limpa  
                           Antes do início dos filmes.  
                           No calafrio de se sair das águas  
                           Quando o mar não esta para peixe.  
                             
                           Lá  onde a claridade divide em sombras o que somos.  
                           Lá onde  jamais seremos.        
                           Lá dentro do movimento do relógio,  
                           No sentido anti-horário,    
                           Quando permite as minhas mãos  
                           Refazerem parte do caminho do tempo.                             

                           Rente à alta velocidade com que a morte  
                           Passou por mim e só fez um leve aceno.  
                           Rente à porta que se abriu após um carro girar  
                           No ar e ir descansar o casco sobre uma calçada.  
                           Rente a sair ileso, sem dar uma só gota de sangue   
                           A morte, e a morte nem se sentir atropelada.  

                           Sobre as ondas de seis metros de altura  
                           Que numa prancha impossível nunca descerei  
                           Em nenhum Havaí. Sobre um lugar que nunca irei  
                           Mas  que se confunde com todo local  
                           Onde poderei estar antes de um dia  
                           Amanhecer encontrando paralelas no infinito.  

                           Antes do destino nos jogar como garrafas ao mar.  
                           Antes, e depois de abrir e fechar páginas da Bíblia.  
                           Dentro das pirâmides do Egito.  
                           Nas chamas das velas acesas em templos ocultos,  
                           Dentro do fundo do mar sem medida   
                           Por onde um submarino nuclear  
                           Carrega uma ogiva que nunca será usada  
                           Dentro da divisão dos átomos   
                           Porque o homem não dividiu o pão.  

       Segurando a alma que quer escapulir  
       Do céu da boca, deglutindo a alma sem engasgar        
       Nas imagens dos castelos de areia que crianças   
         Fazem diariamente frente ao mar  
         De qualquer praia deste já espaço  
         Onde um dia vão ser cidadão do mundo.  

                           Onde todo mar é igual, e cada uma  
                           Dessas incontáveis crianças  
                           Certamente saberiam equilibrar  
                           Bandeiras brancas, sobre torres  
                           De suas construções diárias.  
                           Onde esta Terra sabe que todo o mar  
                           É de todos. E onde esta nave – mãe - Terra  
                           Dorme um lado de seu território  
                           Para acordar o outro lado  que se sabe despertando:  
                           Corpo - Terra - de - todos.  

                           Onde partem embarcações com içadas  
                           Velas que não precisam ser apenas brancas,   
                           Pois, todas as cores também em uma só se unem.  
                           Onde os pombos - correios transitam   
                           Cartas de amor. Onde a paz não tem fronteira.  

       Onde a paz pode ser um cão abandonado.  
                
       Lá na chuva que é um bem comum  
         Se distribui suas águas  
         Sem distinção de crenças, raças, poderes.  

                           Ao  lado de tua respiração sussurrando como vento  
                           Em meu corpo, no mesmo ar em que respiramos.  

                           Na tua sombra junto a minha  
                           Que unidas se prolongam, e que com os restos  
                           Dos teus sonhos juntos aos meus  
                           Nos permitem despertar.  

                 Nas linhas que não leio nas palmas das tuas mãos  
                 e imagino caminhos além das mãos. 

       Rondando os teus seios
       E no espaço entre-seios acolhido
       Qual um soldado em trincheiras.

          Alhures, nos projetos da guerra nas estrelas.
       Alhures, no coração do sol
       Que como qualquer lâmpada
       Um dia também se apagará.

       Procurando a origem.  
         Na Torre de Babel onde de cima  
       Podes não me escutar batendo na porta.  

                           Se te falo que linguagem decifrar?  
                           Escutando com muita atenção o teu silêncio.  
                           Pesando o silêncio miligrama por miligrama.  

                 Ao desconfiar de algo estranho no ar.  
                 Dizendo aos céus:    
                 "Desça, logo, disco-voador.  
                 Explique-se telepaticamente”.  
                 Insistindo até que, enfim,  
                 Os passageiros dos naves espaciais  
                 Acreditem em nós.  

                           Embrulhando o som do silêncio.  
                           Meditando sobre o vazio. 
                           Repleto transbordando o meditado  
                           A escorrer nos poros o suor de quem corre.  

                           Correndo atrás do tempo,  
                           Lado a lado com o tempo.  
                           Até o tempo se cansar de mim.  

                           Correndo atrás de uma bola  
                           Com o olhar fixo 
                           Na vibração de um gol da seleção.  
                           Pasmo na estranheza das derrotas 
                           Sim, Deus pode ser brasileiro  
                           Mas nem todo dia está jogando.  
                                                                                                                  
                           Nos enigmas reais ou imaginários   
                           Sobre as guerras.  

                           Onde deixamos nosso olhar ousar  
                           Contra o invisível, se arriscar contra o gotejamento  
                           Infindável, gota a gota e diário de sangue  
                           Para aqueles que perderam parte de si  
                           Em toda e qualquer luta injusta.   
                           E toda guerra é sempre injusta.

       A guerra não pode ser o bom combate.  

       No som da sirene das ambulâncias  
         No pisca-pisca dos vermelhos sinais de alarme.  

                           Com a precisão dos que desapontam armas.  
                           Com a atenção voando entre tenacidade e vigilância,  
                           Com os olhos fechados e a alma desabotoada.

       Transluzindo os reflexos
       Dos teus olhos guardados nas minhas retinas.

       Dentro dos livros da História Universal
       Nas letras das páginas perdidas.
       Sim, por que não? Afinal quantos de mim
       Estiveram me fazendo?
       Quem me trouxe até aqui de carne e osso?
       Onde está esse pessoal todo?
       Certamente tenho centenas de antepassados
       Mortos numa guerra qualquer.

       Nos cântaros das águas dos teus olhos
       Sorvendo a sede.

       No minuto precedente aos terremotos.
       Exatamente no segundo durante e na hora
       Após o desabar, vasculhando escombros.

       Dentro do tempo futuro em livros ainda não acessíveis
       Mas que poderiam aceitar o arrancar de palavras mortais.
       Ainda que nem escritas.
       Dentro do espaço que a poeira faz entre livros
       Nas estantes esquecidas e onde é possível escrever a  Paz.

       Aprontando o que não deveria aprontar
       Espetando demônios, ladrando para leões

       Esperando a chuva passar,
       Esperando a tua boca fresca
       Após a tempestade de um dia
       De insuportável calor.
       Esperando a procissão fluir e vendo a fé
       Querer correr qual areia dentro de uma ampulheta.

                           Certo do desfazer da matéria  
                           Certo da eternidade da alma.  
                           Certo que de alguma forma mesmo que  mínima  
                           Influenciamos até no sol ao buscar as sombras.  
                              
                           Certo de que somos todos bem mais semelhantes  
                           Do que diferentes, e que a igualdade  
                           Faz de todo ser parceiro de todo e qualquer destino.  
                           Certo de que o dedo que aperta um gatilho  
                           Também pertence a  mão capaz  
                           De apertar outras mãos.  

       E se diferentes somos em ideologias.
       São quase sempre formas diferentes de se pensar
       Mas que não passam de água:
       Um dia vapor, um dia líquida, um dia sólida.
       Mas certamente um dia no pretérito passado
       Havia algo em comum, pois, Deus
       Riscou Fiat Lux nas águas
       E um dia foi da água comum
       Que nossas igualdades foram se dissipando.

         Mas o que são diferentes ideologias
       Senão pensamentos?
       Então, certamente diferentes,
       Em algo somos bem semelhantes
       Pois, a Paz é o silêncio e a voz
       De todas as ideologias: se não hoje
       Amanhã, sim, como toda água
       É a mesma em diferentes formas.

         Não vale a pena esta morte
       Para Deus nenhum. E se Deus
       é apenas um, o que importa
       A denominação diversa?

                           Desmontando muros predestinados,  
                           Desativando bombas-relógios,  
                           Sabendo que logo um século espera  
                           Por parte de nossas existências.  

       Frente aos que pregam sobre Deus.
       E,às vezes, sem perceber, pregam ainda mais o Cristo
       Na cruz indefinidamente.

                           Frente aos que se querem  
                           Proprietários exclusivos de Cristo  
                           Como se Deus fosse patenteável. 

                            Frente a despedida de parentes e amigos mortos.  
                           Frente aos mortos desconhecidos, aos não identificados  
                           Que chegarão a Deus sem documento algum, mas,  
                           Que, certamente, Deus há de reconhecê-los.  

                           Contando com um, com dois, com mil.  
                           Contando com o que não vejo e pressinto.  
                           Contando que chegará o dia que não vai ser  
                           Nem mais necessário contar.  
                           A paz é incontável.  

                           Ao me perceber eterno demais e, ao mesmo tempo,  
                           Frágil demais, diante de uma coleção de mistérios.  
                           Ao se saber a vida algo rápido como um relâmpago.  
                           Ao  sentir que nos perdemos qual gotas de água na areia.  

                           Ao me ver repetido nos meus filhos.  
                           Ao me perceber Filho do Universo.  

                           Percorrendo o meu chão, e o mapa do mundo acariciando.  
                           Percorrendo os teus olhos  
                           Como quem vê um lago e mergulha fundo,  
                           Por mim, por ti, por nós, procurando a paz, procurando Deus.  

  


 

Armas caladas em Kosovo

                                         Juju Campbell Penna

                   I

Soprar nesta canção de junho
um tão intenso tão intenso
um fogo um afã tão densos
uma vontade tão tensa
que se abra nela um arco
e perdure milênios à frente.
Dentro dela haja tal cor, tal flor de neve,
tal creme, tal vivaz verve de vinho,
candente forja de mentes
que dela novos homens irão brotando
acendendo-nos, derretendo-nos,
restabelecendo-nos as falas,
reascendendo as resinas e madeiras.

                   II

Em fogueiras retrabalhamos nossos corpos,
respirando luar e estrelas,
iluminando-nos de lanternas
brilhando de todos os prazeres
sem tirania dos trópicos
sem famintos nem sedentos,
num mundo sem desfaçatez,
ganância, avareza, demência.
Num mundo  de novo carne e vida,
devaneio, sonho desejo,
silenciada  noite de Kosovo
balões, infinito, vinho quente.

                        III  

Canjica, quentão, aipim frito
cheiro de lenha e lareira,
sopro nessa canção de junho
um intento de PAZ imenso
um projeto de amor extenso
um contentamento no silêncio
das armas caladas por fim em Kosovo e
um perdurar noutro milênio.


 

  PAZ

             Antonio Barreto

1.         Excesso de noite nos olhos de uma estrela.
       
    Linha de luz e silêncio.
           
paralela à que os anjos fazem
           
quando voltam pra casa.
        
    (Região desconhecida onde Deus faz suas orações).     
                                Momento interno da alma
            quando todos os sentidos perdem os sentidos.

 

2.         Diz-se dos mísseis, das bombas e dos abrigos
            subterrâneos
            quando estão dormindo sob a terra em chamas
            e os homens se queimando
            numa guerra fria.

 

3.         Espécie de cefaléia crônica:
            doença muito comum aos loucos, nefelibatas,
            poetas e soldados.

 

4.         PAZ: ausência de conflitos entre pessoas míopes
                      (querendo fazer as pazes)
            e que,
            mesmo longínquas,  
           
possuem a humanidade bélica dos kamikases
            e a fraternidade suicida dos átomos.

 

5.         PAZ: revelação provisória do nada absoluto,
            esperança eterna, o último fruto  
           
dos cogumelos do apocalipse.

 

6.         PAZ: se houver Futuro,
            uma criança apascentando as árvores.
                          Uma legião de chefes de estado
                          em estado de fotossíntese.

....Poemas sobre a paz